Um artista no meio da destruição. Um ser criativo entre os escombros de uma cidade arrasada. Que pensa ele? Que poderá ele fazer? Chama-se Richard Adelson. "Desde criança que conheço a minha natureza", diz. E seria de pensar que falava de si próprio. Mas não. Refere-se à natureza que o circunda. A Port-au-Prince, ao Haiti. Desde criança que quer ser artista, mas não é isso que está a dizer. É isto: "Eu conheço e amo esta natureza."
Richard tem 28 anos e, ao contrário de muitos jovens da sua idade, nunca quis emigrar. "Para quê? As pessoas que vão para a Europa ou os Estados Unidos fazem-no para trabalhar. A mim não me falta trabalho aqui." Mesmo que não ganhe dinheiro, sabe o que tem a fazer. "Conheço a minha natureza e quero trabalhar nela."
Quer criar, mas no seu mundo. Para Richard, criar é transformar. O espaço em volta é a sua exaltação, a sua realidade e o seu sonho. Vive para lhe acrescentar beleza, que é também uma forma de lhe pertencer.
Pinta desde os 14 anos. Quando disse ao pai que pretendia estudar arte, ele ficou preocupado. Sempre pensou que os filhos poderiam dedicar-se a algum negócio rentável nos EUA. Richard frequentava uma escola integrada na SOS Children, uma organização internacional de caridade com base na Áustria, que cria orfanatos e escolas para crianças pobres na América do Sul, África, Ásia e Europa de Leste. Foi nessa escola que conseguiu matricular-se num curso de artes gráficas. Durante três anos, aprendeu tudo o que pôde: pintura, escultura, cerâmica, caligrafia. Depois tornou-se profissional. "É o que eu faço. É a minha forma de viver."
Desenha anúncios publicitários sob encomenda, faz a decoração de edifícios, pinta bandeiras e corpos (body painting) para cerimónias religiosas e festas, imprime T-shirts, pinta quadros que vende a homens de negócios e outros ricaços, encarrega-se da ornamentação dos populares autocarros que enchem as cidades e estradas do país, os tap-tap. O nome vem do som das palmadas que os passageiros dão na chapa da camioneta, para dizerem ao condutor que querem parar.
No Haiti, ser artiste é uma profissão respeitável, porque é considerada útil. Nada se faz sem embelezamento. Quando um edifício acaba de ser construído, chama-se um artiste para lhe enfeitar a fachada, com motivos geométricos ou figurativos, ou anúncios comerciais pintados à mão, mediante rentáveis contratos com as respectivas marcas. Quando um empresário compra uma carrinha pick-up para a usar como autocarro, construindo-lhe atrás uma caixa em madeira com bancos corridos, contrata um artiste para executar a decoração final. Anúncios, retratos de celebridades internacionais como Madonna ou Michael Jackson, imagens religiosas ou rituais e frases, muitas frases, com muitas cores, podem fazer parte da decoração das carroçarias dos tap-tap. As frases provêm do léxico das igrejas evangélicas, ou de velhas narrativas vudu, ou de restos de imaginário hippie. "Paix. Amour. Union", lê-se no pára-brisas de um tap-tap. Noutro: "Full Love". Neste: "L"Eternel est mon Berger". Naquele: "Dieu dirige mes Affaires". Representações de Baron Samedi, o espírito dos mortos do panteão vudu, com as suas casaca e cartola, rosto branco e óculos de sol, ou da loira Maman Brigite, de vestido negro e lenço em redor da caveira, a beber rum e a esfregar pimentos nos genitais. Também de óculos escuros, que no mundo dos mortos a luz é demasiado intensa.
Tudo isto até ao último milímetro quadrado do tap-tap, em grande confusão de crenças, mundos e tons. Mas em irrepreensível harmonia, porque sempre sob a orientação de um artiste.
Por um tap-tap inteiro, Richard ganha 150 dólares americanos. É uma das suas fontes de rendimento. Outras são os anúncios em fachadas e os quadros com que os membros das classes mais abastadas gostam de decorar as suas salas. Richard gosta de representar o corpo humano e de desenvolver estudos conceptuais, combinando elementos simbólicos de inspiração tradicional e moderna... Mas, para ganhar dinheiro, tem de adaptar-se ao gosto dominante. E o gosto dominante entre a classe alta haitiana é... a pintura abstracta.


