Grande noite eleitoral renova espíritos dos republicanos

04.11.2009 - 18:56 Por Rita Siza, Washington
O Partido Republicano dos Estados Unidos conseguiu reverter o ciclo de consecutivas derrotas eleitorais dos últimos cinco anos, vencendo mais ou menos confortavelmente as eleições para os governos da Virgínia e Nova Jérsia, antes sob o domínio dos democratas. “Começou o renascimento do GOP”, proclamou o presidente do Comité Nacional Republicano, Michael Steele.
Aqueles dois estados votaram esmagadoramente por Barack Obama nas eleições presidenciais do ano passado, o que já levou o Partido Republicano a extrapolar os resultados como o início de uma poderosa onda de descontentamento e oposição ao Presidente.
O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, refutou essa interpretação, insistindo que as eleições para governador dizem respeito a “questões locais” e não são “referendos às politicas do Presidente”. Gibbs argumentou ainda que os resultados não punham em causa a capacidade de Obama levar avante a sua agenda política.
A vitória republicana no estado da Virgínia foi avassaladora: o partido elegeu Bob McDonnell para governador com uma vantagem de mais de 15 pontos; Bill Bolling para vice-governador e Ken Cuccinelli para procurador-geral. O GOP recuperou ainda quatro lugares na legislatura estadual, pondo fim a uma década de expansão dos democratas.
A votação ficou marcada pelo desinteresse total de mais de um milhão de eleitores que, em 2008, compareceram nas urnas para eleger Obama: os jovens, afro-americanos, os profissionais dos subúrbios da capital e os hispânicos.
Os eleitores registados como independentes — um bloco em franca expansão a nível nacional — caíram para o lado do candidato republicano por uma margem de 60-30, tanto na Virgínia como em Nova Jérsia, naquele que foi um primeiro sinal de desgaste na coligação eleitoral engendrada por Obama no ano passado.
Estes eleitores são, por definição, imprevisíveis — daí serem chamados “swing votes”. Nos próximos dias, as sondagens encarregar-se-ão da sua caracterização: para já, é impossível perceber se são “moderados” (de acordo com a gíria política) ou efectivamente “conservadores”, como têm descrito os comentadores da direita.
Mas nem tudo foram boas notícias para os republicanos na noite de terça-feira. Nas eleições especiais para o 23º distrito congressional, no Norte do estado de Nova Iorque, o candidato democrata Bill Owens conquistou um lugar que estava nas mãos dos seus adversários desde meados do século XIX.
À última hora, Owens contou com o apoio da candidata republicana, Dede Scozzafava, que suspendeu a sua campanha perante a pressão insuportável da facção ultra-conservadora do seu partido, que quebrando a disciplina endossou o concorrente do Partido Conservador Doug Hoffman.
Este fez uma campanha exclusivamente assente nas chamadas “questões sociais”: a sua candidatura baseava-se numa feroz oposição ao direito ao aborto e ao casamento de homossexuais. Em termos económicos, Hoffman disse ser contra planos de estímulo, contra a expansão dos subsídios do governo e contra a ajuda aos bancos.
A sua rápida ascensão, mas posterior derrota, deixa os republicanos com um dilema para resolver: como ultrapassar a divisão crescente do partido entre os moderados que alinham pela cartilha económica de Reagan e os radicais entrincheirados nas “guerras culturais” contra os liberais?
Os comentadores consideram que estes resultados não permitiam, por enquanto, predizer a tendência do eleitorado nas próximas eleições para o Congresso (2010) ou a para a Presidência (2012). Mas sem dúvida terão uma consequência imediata: eles vão condicionar a estratégia daqueles que vão a votos em breve e também o discurso dos media sobre o estado da política norte-americana.
Alguns analistas consideravam que, mais do que nada, os eleitores tinham usado as várias eleições de ontem para castigar os candidatos e partidos incumbentes. A população não quis deixar passar a oportunidade de demonstrar a sua insatisfação com a crise económica e a lentidão da retoma — em Nova Jérsia, por exemplo, o desemprego é a realidade para 10 por cento da população activa.

