Governo francês critica associação que tentava retirar 103 crianças do Chade

30.10.2007 - 15:53 Por AFP, PUBLICO.PT
O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Bernard Kouchner, criticou hoje a associação humanitária que pretendia retirar 103 crianças do Chade, afirmando que não é possível “agir sem regras” num país estrangeiro. Dezasseis europeus, nove dos quais franceses, foram ontem acusados de “sequestro” dos menores, a maioria dos quais não serão órfãos.
“Não podemos agir sem regras, ignorando factos elementares num país que não é o nosso”, afirmou o chefe da diplomacia francesa e antigo fundador da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), à margem de uma visita a Banguecoque.
Mostrando-se reticente em responder a mais perguntas, Kouchner sublinhou que o caso envolve uma organização não-governamental que é, por isso, livre de agir à margem das instruções das autoridades nacionais.
O caso foi detectado na passada quinta-feira, quando a polícia da cidade de Abeche (Leste) impediu, à última hora, o embarque de 103 crianças que a associação humanitária francesa Arca de Zoe pretendia levar para França. A associação alegava que se tratavam de crianças órfãs, refugiadas do conflito na vizinha província sudanesa de Darfur, as quais seriam encaminhadas para famílias de acolhimento em França.
No entanto, as autoridades locais sustenta que as crianças são cidadãos do Chade, e não órfãos sudaneses, que os seus documentos de identificação foram forjados e de que há suspeitas de que as crianças seriam vendidas para adopção ou entregues a redes de prostituição.
Ontem à noite o Ministério Público de Abeche acusou os nove cidadãos franceses – seis responsáveis da associação e três jornalistas que os acompanhavam – de “sequestro de menores” e “fraude”.
Os sete tripulantes do avião espanhol fretado para fazer a viagem entre Abeche e Paris foram acusados de “cumplicidade”, apesar dos protestos de Madrid, que exige a libertação imediata dos seus cidadãos, argumentando que estes não estavam a par dos pormenores da operação. Há dois cidadãos do Chade acusados do mesmo crime.
A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) exigiu também já a libertação dos jornalistas, lembrando que estes estavam em trabalho, a cobrir uma operação da qual não faziam parte.
Maioria das crianças não seriam órfãs
A diplomacia francesa reconheceu hoje que a maioria das 103 crianças que a Arca de Zoe pretendia levar para França, com o objectivo de serem adoptadas no país, “são cidadãos do Chade e a maioria tem pais vivos”, confirmando informações já adiantadas pela UNICEF, a quem as crianças foram confiadas.
Distanciando-se do caso, Paris anunciou que os seus cidadãos deverão responder “pelos seus actos no Chade”, garantindo-lhes assistência consular, mas a oposição já denunciou a posição do Governo conservador, exigindo que os cooperantes sejam julgados em solo francês pelas faltas que eventualmente tenham cometido.
Esta manhã, um jornalista da AFP que se deslocou à cidade de Abeche avistou os 16 europeus, retidos numa das alas do tribunal local, aguardando transferência para N'Djamena, onde deverão aguardar julgamento em prisão preventiva. No exterior do tribunal, dezenas de pessoas manifestavam-se contra os detidos, a quem acusavam de “ladrões” e assassinos”. “A França é cúmplice, mas a colonização já acabou”, gritava um manifestante.


