Gordon Brown realça o "interesse nacional" de fortalecer os laços com os EUA

30.07.2007 - 10:22 Por Rita Siza, em Washington
"Claro que vamos ouvir as palavras com muita atenção, mas mais do que as declarações, trata-se de interpretar os gestos, os sorrisos, as posições, o ambiente geral em que decorre o encontro", confessava ontem um repórter da BBC horas antes de o novo chefe do Governo britânico, Gordon Brown, e o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, aparecerem para a primeira conferência de imprensa conjunta, no complexo de Camp David (Maryland).
O líder britânico chegava ontem aos EUA para a sua primeira visita desde que assumiu o poder. "Em que medida o relacionamento entre os dois países será diferente com Brown do que era antes com Tony Blair" era a pergunta que todos queriam começar a responder assim que ambos se cumprimentassem.
Dos dois lados do Atlântico, a imprensa entusiasmava-se com a perspectiva do início de um "novo capítulo" na relação entre os dois aliados históricos. Ninguém espera que Brown seja tão caloroso com Bush quanto o seu antecessor (até por uma questão de feitio...), mas, como o novo primeiro-ministro fez questão de sublinhar, à partida de Londres, também não se deve esperar uma mudança significativa na forma como os dois abordarão as questões comuns. E isto apesar do interesse de Brown em demarcar-se da imagem excessivamente comprometida com a política norte-americana de Blair.
"É absolutamente do interesse nacional do Reino Unido ter um relacionamento forte com os EUA, com os quais temos a mais importante relação bilateral", sublinhou Brown antes de deixar a Europa. "É uma relação baseada nos nossos valores comuns de liberdade, oportunidade e dignidade do indivíduo. E, por causa desses valores que partilhamos, o relacionamento com os EUA não só é forte como pode ser fortalecido nos próximos anos", assegurou.
Também o porta-voz da Casa Branca, Tony Snow, insistiu na importância da relação bilateral e desdramatizou o contraste entre o novo e o antigo primeiro-ministro. "Bush e Gordon Brown têm um relacionamento muito especial", garantiu. A diferença será, portanto, mais de estilo e menos de substância. "De certeza que Gordon Brown não vai ser o poodle dos americanos. Vamos ver se será um pitbull", comentou o mesmo repórter da BBC.
O Iraque é obviamente o ponto central da agenda. O Reino Unido mantém 5500 soldados no território, e tem havido especulações de que, depois da entrega de Bassorá, os britânicos poderão preparar uma retirada. Mas Brown trouxe uma mensagem reconfortante: a promessa de não abandonar o Iraque "precipitadamente", ainda que defenda que a intervenção estrangeira deve entrar numa "nova fase".
Também numa "nova fase" está o processo de paz israelo-palestiniano, agora que Tony Blair se tornou no enviado especial do Quarteto internacional. Mais do que a oportunidade de recordar Blair, o assunto deverá ser apresentado como um ponto de acordo e cooperação entre os dois aliados.
Outras questões que seriam abordadas: a presença da NATO e a reconstrução do Afeganistão; o problema do desenvolvimento da tecnologia nuclear do Irão; o processo de independência do Kosovo; a instalação de um sistema de defesa antimíssil na Europa Central; o genocídio no Darfur. Os temas "quentes" das últimas cimeiras do G8, como o combate ao aquecimento global ou as rondas negociais para a liberalização do comércio mundial também constam na agenda.
Ontem à noite, Brown tinha planos para jantar com Bush, e pernoitar Camp David. Hoje, segue para Washington, para vários contactos.

