Futuro da Grécia vai hoje a votos debaixo de fogo político e social

29.06.2011 - 07:35 Por Raquel Almeida Correia
Atenas precisa que 151 deputados digam "sim" ao novo pacote de austeridade para evitar a bancarrota.
A votação começa hoje, no Parlamento, que ontem serviu de pano de fundo a graves conflitos entre manifestantes e polícia. A greve geral de dois dias continua hoje, em protesto contra as medidas definidas pelo Governo para garantir que as autoridades externas não suspendem o financiamento ao país e acalmar os mercados.
Hoje começa a primeira ronda de votações, depois de dois dias de intenso debate sobre o plano extraordinário de contenção que tem como meta um encaixe de 28 mil milhões de euros até 2015. Vai estar em cima da mesa a deliberação sobre as grandes linhas do novo pacote, que só passam com, pelo menos, 151 dos 300 votos dos deputados. Amanhã, e caso se consiga esta maioria, será a vez de as medidas específicas do programa irem a escrutínio.
Apesar dos apelos do Pasok, partido no poder desde 2009 e liderado por George Papandreou, persistem as dúvidas sobre se o plano passará no Parlamento, já que, além da rejeição clara da principal força da oposição (protagonizada pela Nova Democracia), também existem divergências internas dentro do executivo.
Pelo menos dois deputados do Pasok, que tem agora um total de 155, já se assumiram contra as medidas e cerca de meia dúzia tem lançado críticas, embora de forma discreta, ao caminho que está a ser percorrido. Papandreou serviu-se, no início desta semana, do "dever patriótico" para conseguir a maioria que evitaria um cenário de bancarrota para a Grécia, com risco de contágio a outros países.
É que, sem a aprovação do novo pacote de austeridade, que inclui um aumento da carga fiscal e novos cortes salariais, o financiamento de emergência do país fica em risco. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia (UE), que acordaram com Atenas um empréstimo de 110 mil milhões de euros, em Maio do ano passado, fazem depender desta votação a entrega da quinta tranche, no valor de 12 mil milhões. A decisão final será tomada a 3 de Julho, numa reunião do Eurogrupo.
"A lei não passará"
"Estamos a lidar com a história do país neste momento e ninguém pode brincar com isso", afirmou esta semana o ministro das Finanças grego, Evangelos Venizelos, numa das últimas tentativas para chegar a um consenso político, que tem vindo a falhar sucessivamente. As autoridades externas chegaram a fazer desse entendimento um pré-requisito, mas tiveram de recuar face às divergências entre as forças políticas.
Esse afastamento também é sentido nas ruas de Atenas, onde a tensão está a aumentar significativamente. Ontem, no primeiro dia de uma greve geral de 48 horas, convocada pelas duas principais centrais sindicais do país (Gsee e Adedy), a violência voltou a marcar presença, com várias lojas e viaturas vandalizadas e conflitos entre manifestantes e polícia, entre nuvens de gás lacrimogéneo e as chamas dos cocktails molotov.
"Não às medidas de miséria social", lia-se nos cartazes erguidos pelo movimento de cidadãos que dá pelo nome de Indignados e está acampado à porta do Parlamento, no topo da Praça de Syntagma, desde 25 de Maio. As últimas sondagens também deixam transparecer o desagrado generalizado, com 70 a 80 por cento da população a assumir-se contra as novas medidas.
Os cinco mil polícias destacados para controlar a multidão chegaram para as manifestações pacíficas que encheram as ruas da capital de manhã e ao final da tarde. Mas não contiveram a violência dos manifestantes mais extremistas. "A lei não passará", gritavam. Houve, pelo menos, uma dezena de feridos e 18 detenções.
A Grécia enfrenta a quarta greve geral este ano que se prolongará durante o dia de hoje. A julgar pelo que aconteceu nas primeiras 24 horas, a maioria dos serviços públicos estará de portas fechadas, assim como os bancos, as escolas e os transportes (excluindo o metropolitano). Também houve registo de cancelamentos de voos e de ligações portuárias.


