Jacques Chirac foi pela primeira vez eleito em 1995, com a promessa de pôr fim à fractura social. Enquanto Presidente, não o fez. Entre ricos e pobres, o fosso aumentou. Sete anos depois, em 2002, aquele que deixa agora o Palácio do Eliseu venceu facilmente face a Jean-Marie Le Pen com os votos da direita, do centro e da esquerda, depois de uma primeira volta em que não ultrapassou os 20 por cento, numa eleição com uma das abstenções mais altas em França.
Por isso, dizem analistas, não só não cumpriu o que disse da primeira vez, como foi eleito com um fraco mandato da segunda, contribuindo para acentuar a crise social e de valores em que hoje está mergulhada a França.
Na hora da partida, deixa sentimentos mistos, mais negativos do que positivos, e um desejo profundo de mudança entre os franceses. Dos candidatos que hoje disputam a segunda volta - Ségolène Royal do Partido Socialista (PS) e Nicolas Sarkozy da União para um Movimento Popular (UMP) - espera-se que sejam portadores de uma viragem, que reconcilie os cidadãos com a política, relance a economia e devolva à França a influência no mundo. Ambos são elogiados pela tenacidade, a resistência, a força de carácter "extraordinárias". E ao mesmo tempo ambos inquietam.
Sarkozy, pelo carácter intempestivo. Diz-se que grita com os colaboradores em privado, que abusará do poder para impor um programa ultraliberal, que terá pouco em conta as necessidades das pessoas, a igualdade de oportunidades, a solidariedade de um Estado, tradicionalmente presente, e que tenderá a ser cada vez mais ausente.
Ségolène, por ser autoritária e trilhar caminhos sozinha, sem ouvir ninguém, nem no PS nem na equipa chegada de conselheiros e colaboradores; por mudar de ideias e não ter políticas definidas, por não se saber se vai aumentar os impostos, manter ou aumentar o peso do Estado, e como vai manter as suas promessas, como a criação de empregos ou o apoio às pequenas e médias empresas. Ségolène diz que irá buscar fundos aos impostos sobre as fortunas e o capital. Quer elevar o salário mínimo aos 1500 euros, aumentar o leque de oportunidades para os que hoje estão desempregados. Para isso manterá as 35 horas semanais. A medida socialista que toda a direita critica criou menos empregos mas custou milhares de milhões de euros ao Estado e, segundo Sarkozy, impediu a flexibilização no mercado de trabalho necessária, quanto a ele, para evitar mais deslocalizações de multinacionais que levaram milhares para o desemprego.
Ségolène promete dar incentivos às pequenas e médias empresas que criem empregos e tributar os benefícios das grandes empresas cotadas em bolsa. Para ela, é possível pôr o capital ao serviço da igualdade e da solidariedade social.
Tolerância zero
Sarkozy promete não colocar "a vítima no mesmo plano do delinquente", instituir penas mais pesadas para reincidentes e baixar a idade de responsabilização criminal de 18 para 16 anos. Ségolène mantém a ideia, que tinha chocado a esquerda, dos centros fechados de reeducação com enquadramento militar "se necessário" para jovens delinquentes.
Qualquer um promete ser o Presidente que responderá perante os cidadãos, perante o Parlamento, a que ambos querem dar mais poderes.
Aos receios que inspira de querer concentrar poderes e aniquilar qualquer forma de contra-poder - sindicatos, media, oposição - Sarkozy propõe que as nomeações para cargos públicos feitas pelo Presidente passarão a ser aprovadas por uma comissão parlamentar onde a oposição terá direito de veto. "Cumprirei a minha palavra e faço questão que o meu desempenho seja julgado", diz. Promete ser o Presidente "dos resultados", fazer da França uma "República exemplar".
Ségolène quer ser a Presidente de uma sociedade que inclua todos e que ninguém se sinta excluído e promete igualdade de oportunidades para os jovens dos subúrbios. Quer "esconjurar os demónios da depressão e do declínio". E defende a criação de uma VIª República com menos poderes para o Presidente, e mais para o Parlamento, e um elemento de proporcionalidade nas eleições legislativas, agora exclusivamente decididas pelo sistema maioritário que penaliza os partidos mais pequenos.


