Mais de um milhão de pessoas deverão manifestar-se hoje nas ruas das principais cidades francesas numa nova jornada de greves e protestos contra a estratégia de combate à crise do Presidente Nicolas Sarkozy. O sector dos transportes foi o primeiro a paralisar, ainda na noite de ontem, perturbando o tráfego aéreo e ferroviário.
Esta manhã, vários voos tinham já sido cancelados no aeroporto parisiense de Orly e as autoridades aeroportuárias alertaram para uma perturbação do tráfego “na totalidade do território” devido à greve. Nos caminhos-de-ferro, os comboios estiveram parados durante a noite e, esta manhã, várias composições do sistema suburbano de Paris ficaram paradas. O serviço ferroviário Eurostar, que liga Londres a Paris, só deverá funcionar a 60 por cento durante o dia.
“A crise tem agora um rosto”, sublinhou François Chérèque, dirigente da confederação moderada CFDT, recordando que “toda a gente conhece um vizinho, um amigo afectado” pelo desemprego.
Todos os sindicatos e partidos de esquerda apelaram à mobilização dos trabalhadores, esperando repetir o sucesso dos protestos de 29 de Janeiro, que reuniram entre um milhão (segundo a polícia) a dois milhões e meio (segundo os sindicatos) de manifestantes.
Desde então, a tensão social agravou-se no país, com um aumento recorde da taxa de desemprego – que atinge agora dois milhões de pessoas em idade activa – e uma perda do poder de compra das famílias. Os sindicatos consideram insuficientes as medidas anunciadas por Sarlozy no último mês e, segundo sondagens divulgadas nos últimos dias pela imprensa, três quartos dos franceses consideram “justificada” esta nova jornada de greves.
Além dos funcionários públicos e dos trabalhadores das empresas públicas de transportes, como a companhia de caminhos-de-ferro, os sindicatos esperam também uma mobilização elevada do sector privado. Para tal terão contribuído os despedimentos em massa das últimas semanas, incluindo o encerramento de uma fábrica de pneus da alemã Continental, que deixou sem emprego mais de mil trabalhadores, ou a dispensa de 555 funcionários da Total, mesmo depois de a petrolífera ter obtido lucros recorde no ano passado.
Num clima de tensão social crescente, há quem tema uma radicalização da luta – recentemente um director da Sony em França foi sequestrado pelos trabalhadores e um director da Continental foi recebido com uma chuva de ovos –, inspirada também pelos protestos no território ultramarino de Guadalupe, onde após 44 dias de greve geral os trabalhadores conseguiram aumentos até 200 euros.
“O Governo tem de aceitar discutir com os sindicatos na base das reivindicações apresentadas no início do ano”, exigiu Bernard Thibault, secretário-geral da CGT, o maior sindicato francês. Mas o primeiro-ministro, François Fillon, avisou que não será aprovado “nenhum pacote adicional” depois dos 2600 milhões de euros anunciados por Sarkozy para ajuda aos sectores mais afectados pela crise.



