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Queda do Muro - Testemunhos

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos

09.11.2009 - 12:30 Por São José Almeida

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O jornalista Martins Morim segurando dois Trabant em miniatura O jornalista Martins Morim segurando dois Trabant em miniatura (Daniel Rocha)
Não sei quem tu és e tenho falado contigo. Mas não fales com a minha mulher sobre as coisas que te tenho dito sobre este país, porque ela é do partido." Ainda hoje, passados mais de 20 anos, a frase causa estranheza ao encenador de teatro João Lourenço, que sorri e confessa: "Nunca mais soube dele, esta conversa tem-me acompanhado todos estes anos e só esta frase dava uma peça." Trata-se de um cenógrafo com quem João Lourenço trabalhou e conviveu no Berliner Ensemble, companhia de teatro fundada em 1951 por Bertolt Brecht, em Berlim-Leste. As conversas entre os dois versavam a situação e o sistema da República Democrática Alemã (RDA), "sobre a liberdade, a educação, o que era a verdadeira esquerda". Um dia, dando prova de confiança, o cenógrafo convidou-o para jantar com a sua família. Foi no carro, quando se dirigiam para casa do cenógrafo, que este disparou a frase que até hoje marca o encenador.

João Lourenço viveu e estudou em Berlim-Leste cerca de um ano, entre o final de 1979 e 1980, mas muitos outros portugueses tiveram o privilégio e a experiência de viver num país dividido em dois por um muro, que simbolicamente separava dois regimes políticos e dois sistemas de organização social. Tal como ele, também o musicólogo Mário Vieira de Carvalho, o filósofo João Maria de Freitas Branco, o jornalista Martins Morim, a professora Ana Portela e o treinador de futebol Artur Jorge estudaram ou trabalharam na metade comunista da Alemanha: os quatro primeiros em Berlim-Leste e os dois últimos em Leipzig.

Um anseio de liberdade
O peso do regime ditatorial comunista e a ausência de liberdade, que a frase citada por João Lourenço ainda hoje ecoa, é algo que marcou estes seis antigos residentes na ex-RDA. E que lhes provoca uma dualidade de sentimentos, já que a lembrança da Alemanha de Leste que conheceram também revela admiração pelo que de positivo consideram que aquele sistema possuía.

"Tinha de se pôr fim à RDA e eu tornei-me muito rapidamente um opositor do regime, sendo um admirador do sistema, que, pela primeira vez, me permitiu uma vivência na ausência das desigualdades sociais", explica João Maria de Freitas Branco, filósofo e investigador universitário que viveu em Berlim com a mulher e dois filhos entre 1984 e 1991 - "assisti mesmo ao fim" -, onde se doutorou na Universidade de Humboldt, tendo trabalhado ainda como correspondente do Jornal de Letras.

Quando o fim chegou e o Muro se desfez como se fosse de areia, a maioria dos entrevistados pela Pública viram-no à distância. Artur Jorge foi apanhado desprevenido. Mas reconhece que "a RDA nasceu de uma maneira estranha", pelo que "muitas pessoas daquele país não ficaram tristes com o fim".

Também João Lourenço não escamoteia que se percebia "historicamente a necessidade do Muro como nascera", mas não esconde que, "no início dos anos 80, via-se que havia muita gente descontente com o país, via-se nas pessoas um anseio de liberdade". E explica: "Depois de algum tempo na RDA, percebia-se que havia outra esquerda, que havia pessoas de esquerda que lutavam e eram contra o sistema."

Martins Morim frisa que era visível entre os alemães a contestação, sobretudo entre "a juventude mobilizada pela Igreja" e "na geração do bem-estar que começa a dizer "não" - a geração que tem hoje 40 anos".

Ana Portela apercebeu-se de que a situação "era absolutamente insustentável". Segundo ela, o movimento do Solidariedade na Polónia causa um impacto grande nos meios intelectuais, embora "oficialmente não existisse". E lembra: "Não sabíamos como ia terminar. Discutimos muito, com portugueses e alemães. Sobretudo os intelectuais eram muito críticos. Mas não havia sinais de que ia abrir."

Dois mundos
O clima de ditadura e de opressão estava simbolizado no Muro de Berlim, começado a construir em 13 de Agosto de 1961 para materializar, na então antiga capital da Alemanha, a divisão do país feita entre os vencedores da II Guerra Mundial.

Freitas Branco conta que "tinha uma recomendação de fronteira", o que lhe dava "um estatuto diplomático, que era importantíssimo numa cidade como Berlim", pois permitia circular entre o lado oriental e o lado ocidental, sem que o carro fosse sequer revistado, já que "tinha matrícula diplomática". "Terei sido dos portugueses que mais passaram o Checkpoint Charlie", diz em tom de graça.

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Comentário + votado

Comunismo? Sempre

As pessoas que viveram nos países comunistas eram muito felizes(!!!???). Só que ...

Henrique o Navegador

10.11.2009 12:49