Filiações nos partidos políticos disparam entre os jovens na Noruega

30.07.2011 - 11:13 Por Joana Gorjão Henriques, em Oslo
A Noruega, que vai a votos para eleições municipais em Setembro, decidiu adiar a campanha por duas semanas e suspender debates políticos para fazer o luto dos ataques terroristas de Anders Breivik no dia 22, que matou 77 pessoas, 69 a sangue-frio na ilha de Utoya, segundo o último balanço revelado ontem.
Por enquanto, quem está a colher benefícios da gestão da crise é o primeiro-ministro trabalhista norueguês, Jens Stoltenberg: 94% dos noruegueses acham positiva a forma como geriu o maior ataque à Noruega desde a II Guerra Mundial, mostrou uma sondagem feita pelo jornal VG. O seu Partido Trabalhista também aumentou de popularidade em 10%, passando de 28,1% para 38,7%.
E, segundo o jornal diário Dagsavisen, todos os partidos ganharam novos membros - inclusivamente o Partido Progresso, no qual Breivik foi filiado e que está associado a posições radicais sobre a imigração. Numa ronda pelos partidos publicada na terça-feira, o Dagsavisen apurou ainda que as alas juvenis estavam também a ganhar novos membros (hoje, o jornal ia trazer uma actualização).
Apesar de ser cedo para analisar o impacto político do ataque terrorista em que Breivik matou pessoas ligadas ao Partido Trabalhista, analistas dizem que é muito provável que os trabalhistas tenham um aumento dos votos. Esperam também maior participação eleitoral, depois de o primeiro-ministro ter pedido que se responda ao terrorismo com "mais democracia".
Jens Stoltenberg tem, aliás, sido uma peça fundamental na forma como os noruegueses respondem a Breivik, indo para as ruas com rosas e solidariedade. Os 94% de popularidade no país traduzem-se nas opiniões mais do que positivas dos analistas que ouvimos. Para Bernt Aardal, do Instituto de Pesquisa Social de Oslo, a forma como Stoltenberg definiu o debate foi "altamente influente na reacção popular". "Em vez de pedir mais polícia nas ruas, vingança, ele disse o oposto e isso deu a cor à reacção. Tem visto as rosas nas ruas? Nunca vi nada assim na Noruega."
Observadora da política nacional há anos, Hanna Skartveit, editora da secção de política do VG, acha que o primeiro-ministro "colocou as coisas no tom certo". "Teve um papel muito importante em fazer com que as pessoas ficassem unidas e não deixar que houvesse divisões. E é difícil para ele pessoalmente, porque desde 1974 que ia anualmente a Utoya" - a ilha onde a ala jovem do partido faz encontros de Verão.
Os outros partidos seguiram-lhe o tom, continua, mas seja como for, "muita gente tem defendido que isto não pode contagiar o debate político; de outra forma ele [o terrorista] ganha". O filósofo Lars Gule, que tem acompanhado de perto os debates da extrema-direita, dá o retrato geral do líder de um governo que foi atacado no seu nervo (o terrorista pôs uma bomba no edifício governamental) e que em poucos dias teve que mudar "200 escritórios". "Manteve-se sempre muito calmo. Acho que o facto de estarmos a seguir em frente tão rapidamente tem a ver com a resiliência da democracia norueguesa e com, posso dizer, o nosso way of life, bastante diferente dos americanos no tempo de Bush."
Ontem Stoltenberg e o seu Partido Trabalhista organizaram uma sessão em honra das vítimas. Visivelmente abatido, com os olhos tombos, voz baixa e sem nunca sorrir, Stoltenberg pediu novamente "amor", em vez de "ódio" como resposta. Disse aos jornalistas que ainda era tempo de luto e de pensar nos que morreram e nas vítimas, muitas delas ainda no hospital.
No que todos concordam também é que esta união na dor terá efeitos a curto prazo. E que a extrema-direita com visões semelhantes às de Breivik está espalhada, disso Lars Gule não tem dúvidas. Porque "inclusivamente já se começa a ouvir pessoas respeitadas de partidos em Itália e França a condenar os ataques, mas a dizer que as posições de Breivik não são assim tão radicais". O terrorista escreveu um manifesto onde diz ser o mensageiro de uma cruzada contra "a invasão de muçulmanos" na Europa. Por isso o filósofo só pode ter "esperança" de que não se "volte ao discurso contra o multiculturalismo e os muçulmanos e que se pare de fazer generalizações e esterótipos".


