É um Fidel Castro aparentemente reabilitado, em termos de saúde, e com mais dinamismo do que em tempos recentes, aquele que hoje completa 84 anos, com “poder de veto sobre os planos de reformas económicas traçados por seu irmão Raúl”, destaca a Reuters.
Se bem que uma doença quase fatal conhecida em 2006 o tenha obrigado a transferir a chefia do Estado e do Governo para o irmão mais novo, Fidel Alejandro Castro Ruz continuou a ser o primeiro secretário do Comité Central do Partido Comunista de Cuba (PCC). Ou seja, em última instância, é a pessoa que poderá dizer se o país poderá ou não melhorar as suas relações com os Estados Unidos, o “grande inimigo”, ali tão perto: a 90 milhas, uns escassos 150 quilómetros.
Os analistas que em Cuba e no resto do mundo têm visto aquele a quem a sua biógrafa Georgie Anne Geyer chamou “Príncipe da Guerrilha” ressuscitar de uma morte quase anunciada chamam a atenção para as numerosas presenças em público que tem tido nos últimos tempos.
Toda a gente tenta descortinar qual é que é na verdade o equilíbrio de poderes existente entre o revolucionário nascido há 84 anos na localidade de Birán e o irmão Raúl Modesto Castro Ruz, vindo ao mundo quase cinco anos depois, na mesma povoação da província de Holguín.
Têm surgido nestes últimos anos notícias de tensões entre as duas partes. Se não propriamente entre os dois homens, pelo menos entre os seguidores mais directos de um e de outro, as duas cortes, por assim dizer.
A passagem de testemunho, na hora do envelhecimento e da doença, não foi pacífica, não foi um processo linear. Mercê das circunstâncias, Fidel anunciou em Fevereiro de 2008 ao jornal do PCC, o "Granma", que não se recandidatava ao cargo de Presidente do Conselho de Estado. Mas nunca disse que deixava de ser a primeira figura do partido único.
Por isso mesmo, nestas últimas semanas, nota-se bem que não foi apenas algum peso físico o que ele recuperou, mas também político. Como a insistência que fez em ir no dia 7 de Agosto último à Assembleia Nacional, pela primeira vez em quatro anos, de modo a solicitar encarecidamente ao Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que procure evitar uma guerra nuclear, a qual oporia a América e Israel à República Islâmica do Irão.
De pé, em trajo militar verde-oliva, Fidel falou durante 12 minutos sobre política externa; e foi ovacionado pelos seus camaradas de sempre, enquanto Raúl assistiu, ele que é o segundo secretário do partido de ambos, um dos últimos partidos comunistas que ficaram no poder, depois da queda do muro de Berlim e da desintegração da União Soviética.
Divisão de tarefas?
Uma das muitas teorias que têm circulado nas últimas semanas é a de que os irmãos decidiram dividir tarefas: Raúl toma conta da política interna e Fidel da externa. Raúl abre progressivamente o sistema económico e diminui o número de presos políticos, Fidel alerta o mundo para os riscos de um apocalipse nuclear.
Juntos, aguentam o regime que instauraram desde que em Janeiro de 1959 entraram na capital, Havana, para se substituírem à ditadura de Fulgêncio Batista, que entretanto fugia para a ilha da Madeira, a caminho do Estoril e da Espanha, onde morreria em 1973.
Um militante comunista, que pediu à Reuters para não ser mencionado pelo nome, avançou a teoria de que Fidel, uma vez recomposto, estaria a procurar reforçar a actividade governamental de Raúl, numa altura particularmente difícil, tanto a nível interno como externo. Juntos não seriam demais para contrariar a má imagem externa do sistema vigente.
“O meu papel é dizer o que é que está a acontecer, de modo a que outros possam decidir o que fazer”, afirmou no domingo Fidel Castro a um grupo de jornalistas venezuelanos que o visitaram. E assim se colocou no papel de verdadeiro “deus ex-machina”, a verdadeira divindade cubana, aquela que leva Raúl e os outros a reflectir e a actuar.
O site CubaDebate e o diário "Granma" continuam a publicar regularmente as “Reflexões do companheiro Fidel”. Como se, lá do alto do seu lugar de primeiro secretário do PCC, ele continuasse a ser a fonte primordial de onde emana todo o poder.



