Farah Diba Pahlavi: Os EUA retiveram o Xá nos Açores para o entregar a Khomeini

19.10.2008 - 07:16 Por Margarida Santos Lopes
Há quase três décadas no exílio e Farah Diba Pahlavi, que este mês (dia 14) completou 70 anos de vida, ainda não consegue esquecer-se da noite de 23 de Março de 1980 quando um DC9 das Evergreen Air Lines em que viajava fez escala nos Açores. O avião aterrara, oficialmente, para reabastecimento, mas ficou retido várias horas na pista sem autorização para descolar. “Foi um momento de angústia”, conta a última imperatriz da Pérsia, numa rara entrevista por e-mail.
Para perceber o que se passou na base das Lajes — e que poderia ter mudado o curso da História —, é preciso recuar no tempo. Farah Diba e o seu marido, o Xá Mohammad Reza Pahlavi, tinham sido forçados a abandonar o Panamá e deveriam seguir para o Cairo, onde o Presidente Anwar Sadat lhes renovara a oferta de refúgio. Andavam em fuga há mais de um ano. Várias portas se haviam fechado depois de a monarquia ter sido derrubada pelo Ayatollah Khomeini.
O Egipto tinha sido a primeira paragem do exílio, em 16 de Janeiro de 1979, quando o casal imperial chegou a Assuão. No dia 22, Farah Diba e o “rei dos reis”, agonizante com um linfoma terminal — “segredo bem guardado desde 1974” —, já estavam a caminho de Marrocos, a convite do rei Hassan II. Foi numa luxuosa villa em Marraquexe, a 11 de Fevereiro, que a Rádio de Teerão deu a notícia mais temida pelo Xá: “A revolução venceu, o bastião da ditadura capitulou.”
Nas suas Memórias (Bertrand), a Xabanu (imperatriz) confessa: “Durante alguns segundos, pensei que tínhamos ganho. Para mim, nós éramos os bons e eles, seguramente, o bastião do horror. Infelizmente, eram eles que ganhavam, acabavam de derrubar o último governo [de Chapour Bakhtiar] nomeado pelo meu marido.” O Xá, que recusara os pedidos de oficiais do seu séquito para abater o avião que transportou Khomeini de Paris para a futura República Islâmica, “fechou-se num longo silêncio”.
A permanência em Marrocos, onde se juntaram os filhos que estavam na América, ficou ameaçada quando as massas iranianas começaram a exigir o regresso do imperador, para o julgar e, talvez, executar sumariamente, como aconteceu a centenas de oficiais do regime deposto. A 14 de Fevereiro, a Embaixada dos Estados Unidos em Teerão foi, temporariamente, ocupada por Guardas da Revolução. Ao palácio de Hassan, em Rabat, chegou um emissário dos serviços secretos franceses para o avisar de que Khomeini ordenara o rapto de membros da sua família para os trocar pelos seus hóspedes.
Ainda que o anfitrião se mostrasse solidário, Farah Diba entendeu a gravidade da situação. “Era urgente encontrar outro asilo”, afirma na autobiografia, mas “todos viraram as costas”. A França recusou, alegando que não podia garantir a segurança dos imperadores caídos em desgraça. O mesmo aconteceu com a Suíça e o Mónaco. O México e o Canadá não responderam. “Talvez mais tarde”, foi a resposta dos EUA. Margaret Thatcher, que prometera ajudar se ganhasse as eleições, mudou de ideias quando se tornou primeira-ministra, porque “seria nocivo para os interesses da Grã-Bretanha”.
Das Baamas ao México
Hassan II colocou à disposição dos Pahlavi o seu avião particular, e foi neste que o Xá, a Xabanu e os filhos (Reza, Fahranaz, Ali-Reza, Leila) — e também uma pediatra, uma governante, vários coronéis e o “criado de quarto” do imperador — partiram a 30 de Março de 1979, para Nassau, capital das Baamas. O arquipélago não tinha relações diplomáticas com o Irão, mas a oferta de asilo, conseguida graças a Henry Kissinger, David Rockefeller e Jimmy Carter, tinha um prazo: três meses.
Três semanas antes de os vistos expirarem, as autoridades das Baamas informaram que não os renovariam. Mais uma vez a pedido de Kissinger, o México de José Lopez Portillo aceitou receber a família indesejada. Em 10 de Junho de 1979, Farah Diba, Mohammad Reza e acompanhantes instalaram-se em Cuernavaca, no Sul, numa casa com jardim tropical e escorpiões nas paredes. Era o quarto exílio em menos de seis meses.

