A invasão terrestre – esperada há dias mas desmentida repetidas vezes nas horas que a antecederam – da Faixa de Gaza começou ontem à noite. Durante o dia, tinham caído no pequeno território palestiniano os primeiros disparos de artilharia. À noite, entraram os tanques, as forças de infantaria, de engenharia, infantaria e serviços secretos. Sabia-se que havia dez mil soldados prontos a invadir.
“O objectivo é destruir as infra-estruturas de terror do Hamas” e “tomar algumas das áreas usadas pelo” movimento para lançar “rockets” para o Sul de Israel, explicou a major Avital Leibovitch, uma porta-voz do Exército.
Testemunhas palestinianas viram uma pequena coluna de veículos a passar a fronteira perto de Beit Lahiya, no Norte. A agência Reuters escreveu que os tanques apoiados por helicópteros entraram na escuridão a partir de pelo menos quatro pontos diferentes. Os comentadores de assuntos militares em Israel afirmaram que é pouco provável que as tropas entrem na Cidade de Gaza, o maior centro populacional do território de 1,5 milhões de habitantes.
A primeira ofensiva terrestre desta dimensão desde a retirada israelita da Faixa, em 2005, “não será uma excursão de escola”. “Estamos a falar de muitos longos dias”, concretizou outro porta-voz, o brigadeiro Avi Benayahu, na televisão israelita.
Mortos em combate
O Hamas reclamou ter morto vários soldados, mas o Estado judaico não referiu quaisquer baixas. Fontes hospitalares em Beit Hanoun, próximo da zona em que já decorriam combates, disseram à AFP que nove membros do Hamas tinham ficado gravemente feridos num raide aéreo quando tentavam opor-se ao avanço dos soldados no terreno. Mais tarde, um responsável israelita disse à agência francesa que dezenas de palestinianos armados já tinham sido mortos nas horas que se seguiram ao início da ofensiva.
“A vossa entrada em Gaza não será um piquenique e Gaza será o vosso cemitério com a ajuda de Deus”, afirmou um porta-voz do Hamas, Ismail Radwan, lendo um comunicado na televisão do grupo. No ecrã podia ler-se que a “resistência preparou centenas de homens e mulheres para operações de martírio”.
O Hamas já prometera que se Israel entrasse por terra Gilad Shalit “ganharia companheiros” – Shalit, capturado no Verão de 2006 por forças palestinianas em Gaza, foi o primeiro soldado israelita capturado em mais de uma década. “Não quebraremos, não nos vamos render às vossas condições”, afirmou a partir de Damasco Khaled Meshaal, o líder no exílio.
As garantias de resistência também chegaram do Líbano, onde o líder do movimento xiita Hezbollah disse que os “irmãos na resistência da Palestina” vão “ganhar a batalha”. Nasrallah lembrou a resistência oferecida pelo próprio Hezbollah, na guerra de Julho de 2006. Em Israel, o ministro da Defesa, Ehud Barack, avisou que o país está pronto para ataques do Líbano: “Enquanto combatemos em Gaza, vamos manter um olho aberto à situação sensível na nossa fronteira norte”.
O mesmo Barack assinou “uma ordem de mobilização urgente de milhares de reservistas”. A imprensa israelita referiu dezenas de milhares.
A esperada invasão terrestre foi precedida por disparos de artilharia em Beit Hanoun e Jabaliya, no norte, e na zona de Khan Younis, no sul. Mas os ataques mais mortíferos do dia vieram do ar: em Beit Lahiya, a mesma cidade onde os palestinianos avistaram alguns dos primeiros tanques, as bombas caíram numa mesquita onde estavam 200 pessoas. Pelo menos 11 morreram, incluindo crianças.
Fujam de casa
Ao todo, Israel lançou mais de 40 raides aéreos durante o dia. Do outro lado da fronteira, os rockets do Hamas continuaram a cair e fizeram dois feridos ligeiros.
Israel não largou só bombas: enquanto preparava a ofensiva, bombardeando estradas e zonas suspeitas de estarem minadas, largou milhares de panfletos na Cidade de Gaza e noutras, apelando aos habitantes para fugirem e explicando que por causa “da actividade terrorista”, o exército “está obrigado a responder depressa e a operar no interior da vossa área residencial”. Muitos palestinianos ouvidos pelo jornal New York Times disseram que iam ficar em casa por não terem para onde ir. Não há abrigos na Faixa de Gaza.



