EUA impõem "guerra política, económica e militar" a Cuba, diz embaixador cubano em Lisboa

28.05.2008 - 11:18 Por Adelino Gomes, Rui Parracho, Lusa
Os Estados Unidos impõem, mais que um embargo, uma "guerra política, económica e militar" a Cuba, declarou o embaixador cubano em Lisboa, Jorge Castro Benitez.
Numa entrevista à Lusa, o diplomata sublinhou que, com a actual administração norte-americana de George W. Bush, houve uma "maior agudização" da política norte-americana contra Cuba.
O representante de Cuba em Lisboa fez-se eco de recentes acusações do regime de Raul Castro contra Washington, afirmando que o financiamento da oposição na ilha pelo "terrorismo internacional" é feito por intermédio da representação dos interesses norte-americanos em Havana.
"Cuba apresentou um grupo de provas importantes que mostram uma estreita ligação entre terroristas presos nos Estados Unidos, a diplomacia norte-americana e os mercenários políticos em Cuba" e "pediu explicações a Washington", afirmou Jorge Castro Benitez, referindo-se à oposição interna cubana.
"Os mercenários - a chamada oposição -, que tanto preocupam, sobretudo, a Europa, não passam de elementos assalariados dos Estados Unidos", acrescentou.
Para Castro Benitez, George W. Bush está hoje "frustrado" por não ter conseguido cumprir a promessa que fez quando foi eleito de que, durante o seu mandato, mudaria o regime político em Cuba.
O diplomata não mostra, entretanto, grande optimismo quanto à evolução da política de Washington em relação ao seu país, notando que o candidato presidencial republicano norte-americano John "McCain já disse que vai prosseguir a política da actual administração (em relação a Cuba) se for eleito", nas presidenciais norte-americanas de Novembro.
Contudo, e apesar das declarações de McCain, Castro Benitez acredita que algo terá que mudar na política norte-americana.
"Ninguém poderá cometer a loucura de continuar políticas como (as da administração Bush) em relação ao Iraque ou em relação a Cuba", adianta.
"Como continuar a proibir o turismo de cidadãos norte-americanos para Cuba - o que viola a própria lei dos Estados Unidos -, ou a proibir ou envio de dinheiro para Cuba, ou as trocas comerciais?" interroga o embaixador, numa referência ao embargo imposto por Washington à ilha.
O embaixador cubano denunciou ainda a manutenção em Cuba, pelos Estados Unidos, "contra a vontade do povo cubano e da comunidade internacional", de uma base militar, em Guantanamo, "transformada em prisão de tortura".
Acerca das medidas de abertura recentemente decididas pelo regime de Raul Castro - que substituiu o irmão Fidel na presidência da República por doença deste -, nomeadamente a permissão de que os cubanos adquiram telemóveis ou computadores, ou frequentem hotéis até aqui reservados exclusivamente a cidadãos estrangeiros, o diplomata limita-se a notar que "Cuba está em permanente mudança, porque revolução significa mudar".
"Estamos agora a fazer uma nova mudança, e vamos continuar a fazê-la, mas não a mudança que outros querem impor-nos e sim o que quer o nosso povo", sublinhou.
Sobre o anúncio de Bush de que permitirá o envio de telemóveis por familiares de cubanos residentes nos Estados Unidos, o embaixador ironiza, notando: "Creio que não pode, porque o bloqueio não o permite. Terá que pedir autorização...".
Quanto à metade sul do continente, o embaixador vê com bons olhos a evolução para a esquerda que se impôs na maioria dos países da América Latina.
"Antigamente, Cuba era a única voz contra a pobreza e a desigualdade", e isso já não se verifica, refere o diplomata, considerando que as mudanças de regime nos países latino-americanos resultaram de "políticas neo-liberais extremas que agravaram as desigualdades e provocaram maiores sofrimentos".
Acerca da situação em Cuba, nomeadamente económica, o embaixador manifesta um forte optimismo, notando as diferenças acentuadas que já se fazem notar em relação à situação de crise dos anos 1990.

