EUA e Reino Unido abrem cenário de armar rebeldes contra Khadafi

30.03.2011 - 09:34 Por Dulce Furtado
Os Estados Unidos e Reino Unido aumentaram a pressão sobre Muammar Khadafi, avisando que admitem armar os combatentes rebeldes caso o contestado líder líbio se mantenha arreigado ao poder e ignore os crescentes apelos a que se demita para pôr fim ao conflito de já mês e meio na Líbia.
Questionado ontem, já depois da reunião do chamado “grupo de contacto” para a Líbia, que se realizara em Londres, o Presidente norte-americano, Barack Obama, deixou tudo em aberto: “Não afasto essa possibilidade embora também não esteja a dá-la já como certa”, respondeu num programa do canal ABC News.
Obama confirmou porém que os Estados Unidos vão fornecer assistência à rebelião contra Khadafi sob a forma de ajuda humanitária, fornecimentos médicos e equipamento de comunicações. E sublinhou que a campanha dos aliados na Líbia – agora sob comando total da NATO – não significa que o mesmo se possa reproduzir na Síria, igualmente a braços com uma contestação em crescendo contra o regime do Presidente, Bashar al-Assad, nem outros países do mundo árabe onde manifestações e protestos contra os respectivos governos têm sido violentamente reprimidos pelas autoridades.
A Líbia, explicou Obama, perfila-se com a “circunstância única” em que muitos países se coligaram num mesmo esforço, e mandatados pelas Nações Unidas, para “salvar muitas vidas”.
Antes, no final do encontro de Londres, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, defendeu que fornecer armamento aos rebeldes constitui uma iniciativa legal ao abrigo da resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas – a qual, aprovada a 17 de Março, deu aos aliados o recurso legítimo “a todas as medidas necessárias para proteger a vida de civis” na Líbia, incluindo os raides aéreos da coligação internacional sobre as posições militares de Khadafi que estão em curso já há semana e meia.
“A nossa interpretação é que a [resolução] 1973 emendou e sobrepôs-se à proibição absoluta de armar seja quem for na Líbia”, explicou a chefe da diplomacia dos Estados Unidos, aludindo aqui à resolução anterior das Nações Unidas sobre o conflito na Líbia (1970) que aprovou o embargo de armas. O homólogo britânico, William Hague, concordou que a decisão do Conselho de Segurança tornou legal “dar ajuda às pessoas de forma a que sejam capazes de se defenderem a si mesmas em circunstâncias muito especiais”.
Mas o Reino Unido não está a planear fornecer assistência militar aos rebeldes “de espécie nenhuma para já”, sublinhou, insistindo que a prioridade é “tentar proteger aquelas áreas civis [sob ataque das tropas leais a Khadafi] com as medidas que temos vindo a levar a cabo nestes últimos dez dias”.
Por seu lado, o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Alain Juppé – cujo país liderou com o Reino Unido os esforços diplomáticos para a adopção da resolução do Conselho de Segurança e desferiu o primeiro ataque aéreo contra Khadafi (na tarde de 19 de Março) – afirmou na reunião do grupo de contacto que Paris e os seus parceiros estão “preparados” para começar a discutir a hipótese de fornecer armamento aos rebeldes.
“Mas não sem o apoio claro de uma resolução do Conselho de Segurança”, ressalvou. “Recordo que essa linha de acção não é o que está previsto da resolução 1973”, defendeu – em opinião divergente da expressa por Hillary Clinton.
Moscovo – que se absteve na votação desta resolução no Conselho de Segurança – avaliou prontamente que “nenhum país tem o direito de armar” os rebeldes com base na decisão das Nações Unidas. “[A França] disse estar pronta a discuti-lo (...) mas logo depois o secretário-geral da NATO, Anders, Fogh Rasmussen, afirmou que a operação na Líbia foi preparada para proteger a população e não com o objectivo de a armar – e é com esta última posição que estamos totalmente de acordo”, frisou o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov.
A Rússia, mesmo não tendo usado o seu direito de veto no seio do Conselho de Segurança, tem deixado publicamente bem clara a sua oposição aos raides aéreos dos aliados feitos ao longo da última semana e meia, classificando o apoio militar dado pela coligação aos rebeldes como uma “ingerência” nos assuntos internos da Líbia.


