Sarah Palin voltou para o Alasca, mas continua a ser alvo da atenção mediática. Aparentemente, a ex-candidata a vice-presidente dos Estados Unidos pelo Partido Republicano não sabia que África era um continente: terá perguntado ao staff da campanha de John McCain se a África do Sul era só uma região desse país, noticiou a televisão Fox News, associada à direita americana.
Agora que a campanha acabou, por que é que a eventual ignorância da candidata ainda é notícia? A questão está na guerra pelo poder que rebentou no seio do Partido Republicano, depois de falhada a candidatura de McCain e Palin à Casa Branca.
Desde a última semana da campanha que se especula sobre a possibilidade de Palin ser a nova líder de que os republicanos precisam - e talvez a candidata à presidência de 2012. Ela alimentou essa ideia ao dizer que poderia ser Presidente "talvez daqui a oito anos", num telefonema feito por um actor canadiano a fazer-se passar pelo Presidente francês Nicolas Sarkozy (ela acreditou que lhe estivesse a falar directamente de Paris). Agora, não diz que sim nem que não. "Não sei onde estarei nessa altura, politicamente", disse quarta--feira, antes de regressar ao Alasca. Mas em Wasilla, cidade onde cresceu e foi mayor, já se vendem T-shirts a dizer Palin 2012.
No entanto, a vontade dela de continuar a ter um papel de relevo na política nacional é evidente, nota a Reuters. Até pelas palavras de McCain no discurso em que reconheceu a derrota face a Barack Obama: "Esperamos com grande interesse os seus futuros serviços ao Alasca, ao Partido Republicano e ao nosso país".
Mas, sintomaticamente, Palin não foi autorizada pela campanha de McCain a discursar, embora estivesse no palco ao lado de McCain, e com toda a desilusão da derrota a ser projectada no seu rosto como um filme.
As facas saíram ontem das bainhas da entourage do senador do Arizona, apostados em culpar Palin pela derrota: a revista Newsweek revelou uma série de histórias sumarentas dos bastidores da campanha, e muitos outros jornais e televisões publicaram notícias em que Palin era revelada sob a luz bem pouco favorável de uma diva - e as fontes, embora não identificadas pelo nome, são sempre atribuídas a colaboradores da campanha presidencial de McCain, que consideram que ela reduziu as hipóteses de vitória republicana.
As "gaffes" anedóticas de Palin
Sarah Palin seria uma viciada em compras, terá gasto muito mais do que 150 mil dólares do partido em compras (para si e para a família, incluindo 20 mil a 40 mil em roupa para o seu marido). Terá recusado preparação para a desastrosa entrevista a Katie Couric, da CBS (na qual não conseguiu dizer o nome de um único jornal ou revista que costumasse ler, por exemplo), e que forneceu muito material à actriz Tina Fey, que a imitou no programa cómico Saturday Night Live. Um dia, durante a convenção republicana, terá aberto a porta do hotel a membros da campanha usando apenas uma toalha.
E nunca terá ido ao único sítio do Alasca a partir do qual é possível ver terras russas (uma ilha, chamada Pequeno Diómedes, à qual não chega a televisão e onde nenhum governador pôs os pés nos últimos 50 anos, diz a CNN). E, claro, a anedótica história de Palin não saber que África não era só um país, veiculada pela Fox - uma televisão que, à partida, defenderia uma conservadora em vez de a atacar.
Esta enxurrada de revelações sobre a nova figura cómica preferida do prime-time televisivo americano pode bem ser lida como uma forma de denegrir a sua imagem, de a afastar da vanguarda republicana de figuras que poderão tomar o poder no partido, disse à Reuters o estratego republicano Tony Fabrizio. "Ela tem de voltar ao Alasca e encarar todas as acusações. Os eleitores do Alasca descobriram uma série de coisas sobre a sua governadora que não sabiam. Ela tem de lutar pela reeleição", adiantou ainda Fabrizio.
O Alasca não gostou do que viu. "Nos 68 dias em que a governadora foi candidata a vice-presidente, as coisas mudaram por cá. Alguns dos seus anteriores aliados estão furiosos, e antigos inimigos estão à espera dela", escrevia o jornal da capital do Alasca Anchorage Daily News.


