Estados Unidos apostam na diplomacia para tentar isolar o Irão 
01.10.2009 - 09:24 Por Jorge Almeida Fernandes
A negociação que hoje se abre em Genebra sobre o programa nuclear iraniano reflecte a vontade mútua de "dialogar". Mas é alta a desconfiança, tal como são pessimistas as previsões sobre resultados.
A atitude do Irão, abalado por uma crise de regime, é a primeira incógnita. Prevendo um desfecho negativo, os EUA encaram novas e mais apertadas sanções. A incógnita seguinte é a posição da Rússia e da China. Um eventual fiasco não deve ser sobrevalorizado. Esta reunião parece ser o início de um longo e árduo processo diplomático.
As divergências começam na ordem de trabalhos. A delegação iraniana, conduzida por Saeed Jalili, quer discutir a proliferação nuclear em geral e problemas do Médio Oriente, sem abordar directamente o programa nuclear e, menos ainda, as suas actividades de enriquecimento de urânio até um grau de uso militar.
Em nome do "grupo 5+1" (China, EUA, França, Grã-Bretanha e Rússia, os membros permanentes do Conselho de Segurança, e a Alemanha) falará Javier Solana, chefe da diplomacia europeia. Washington é representada pelo subsecretário de Estado William Burns, Moscovo pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Riabkov, e os outros países por funcionários ministeriais. As seis potências colocarão de novo em cima da mesa a proposta "congelamento contra congelamento": a suspensão das sanções contra a suspensão total do enriquecimento de urânio.
Exigem do Irão a garantia do carácter pacífico do seu programa, a ser confirmado por rigorosas inspecções da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).
"É preciso tempo", declarou aos jornalistas P. J. Crowley, porta-voz do Departamento de Estado. "Não vamos fazer um julgamento instantâneo. Vamos ver como corre o encontro e avaliar a boa vontade do Irão." Informou que o Presidente Barack Obama consultará os parceiros negociais e levará talvez alguns meses a definir os próximos passos.
Mudou o quadro
Esta reunião não é inédita, mas verifica-se num contexto político novo.
No início do seu mandato, Barack Obama decidiu dialogar com o Irão e enterrar a política de "mudança de regime". Tanto o Presidente como a secretária de Estado, Hillary Clinton, e o titular da Defesa, Robert Gates, afastaram o cenário militar e entreabriram a porta a um compromisso que salvaria a face do Irão: poderia continuar a enriquecer urânio no seu território, a título de investigação e em pequena escala, em troca de "intrusivas" inspecções da AIEA. Deixaram de falar no "desmantelamento" das instalações nucleares, concentrando-se na proibição de acesso ao nuclear militar.
O segundo factor de mudança foi a "revolução verde", provocada pela fraude nas eleições presidenciais iranianas, em Junho. A abertura de Obama, retirando ao regime iraniano o "inimigo externo", contribuiu para esse movimento, mas criou um inesperado obstáculo. O regime de Teerão está enfraquecido, a elite político-religiosa está partida, a legitimidade da República Islâmica está em causa. Neste contexto, a negociação é mais difícil, porque contaminada pelo conflito interno.
A ameaça de ataque militar foi praticamente retirada de cima da mesa. Mesmo Israel aceitou apostar - temporariamente - na via diplomática e nas sanções, não complicando a política de Obama. O ministro da Defesa, Ehud Barak, declarou há dias que o Irão não constitui uma "ameaça existencial" a Israel.
Teerão permanece imóvel, jogando aparentemente numa política do facto consumado: ganhar tempo e fazer funcionar as centrifugadoras de urânio, adensando a suspeita do objectivo de acesso à arma nuclear.
Regresso da tensão
A reunião de Genebra foi precedida por episódios de tensão, em que avultam dois momentos. Na sexta-feira, em plena cimeira do G20, Obama denunciou a existência de uma central clandestina de enriquecimento nos arredores de Qom. Washington dela teria há meses conhecimento, mas escolheu a véspera das negociações para lançar a "bomba", desmentindo a transparência que Teerão proclama e pondo em xeque o orgulho dos seus dirigentes: os segredos nucleares podem ser desvendados por serviços secretos ocidentais.
Os Guardas da Revolução iranianos responderam com o teste de um míssil de longo alcance, capaz de atingir Israel e bases americanas.
A revelação da central de Qom teve outro efeito: forçar a Rússia e a China a intensificar a pressão sobre os iranianos. Tanto Moscovo como Pequim se opõem a que o Irão aceda à arma nuclear, mas resistem a um agravamento das sanções. Se o Presidente russo, Dmitri Medvedev, admitiu a eventual necessidade de novas medidas, Pequim, dados os interesses energéticos e a sua doutrina diplomática, não deverá ceder.
Se falhar a via da ONU, os EUA e os europeus encaram sanções ocidentais, visando estrangular o depauperado sector energético iraniano.
Washington está perante um dilema: manter aberta uma saída para o Irão sem pagar um preço que o regime possa capitalizar como benefício político. A eficácia das sanções será sempre mitigada.
O objectivo americano é, por isso, mais largo: reforçar o actual isolamento e o desprestígio do Irão de Ahmadinejad através de uma grande "coligação" internacional. Daí a insistência na via diplomática.
Neste quadro, sublinham analistas, a central de Qom terá mudado a equação, dando um trunfo aos EUA.

