Poucos, muito poucos, saberão dizê-lo, como faz o macaense Miguel Senna Fernandes: "Qui cuza nôs sam? Nós sam portugues ô china?" Neste caso, o patuá não precisa de tradução. Mas este dialecto da comunidade macaense (chineses com ascendência portuguesa) corre o risco de desaparecer.
É por isso que o seu grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau - algo como "Doce língua (ou conversa) de Macau" - é uma espécie de reservatório de uma herança. Dos cerca de dez mil macaenses, apenas um milhar fala patuá, "mas não o tradicional", ressalva.
"O patuá deixou de ter utilidade. Estamos na China e a cultura chinesa é absolutamente absorvente. Mal saímos da porta temos que falar chinês." Não no Café Caravela, onde está sentado, e onde se pode pedir uma meia de leite e um bolo de arroz, ou uma rabanada - mas onde também não é o dialecto macaense que se ouve.
Antes falava-se patuá em casa e no bairro, mas há um século que o dialecto começou a entrar em declínio. Existem várias razões para isso: "Os professores vindos de Portugal consideravam-no mau português, e toca a corrigir". Por outro lado, e sobretudo durante o Estado Novo, "falar bom português era sinal de estatuto".
Em 1992, o escritor e encenador José dos Santos Ferreira, mais conhecido por Adé, quis reabilitar o teatro macaense, como veículo do dialecto. Com a sua morte, pouco depois, coube a Henrique Senna Fernandes cumprir a tarefa. "O meu pai ficou encarregue de pensar numa peça", conta Miguel. "Fui dando ideias e acabámos por fazer uma revista à portuguesa." E é assim desde então o teatro em patuá.
Há um equívoco frequente que faz questão de esclarecer: "Os macaenses são todos portugueses, mesmo os que optaram pela nacionalidade chinesa". Mas perderam-se as "romagens de saudade", que levavam os macaenses a conhecer "a metrópole" - e que muitas vezes terminavam na interrogação: "Em Portugal estamos em casa?"
Agora, as coisas estão mais claras. "A nossa terra é Macau. É este o sentimento de pertença." E a administração chinesa não veio alterar nada, a não ser que, por "oposição ao elemento chinês, predominante", talvez até faça mais sentido dizer assim, de forma assertiva: "Eu sou macaense". "É tudo uma questão de postura perante a cidadania. Temos toda a legitimidade de reivindicar a nossa presença em Macau. Estamos aqui há mais de 400 anos, mais do que qualquer cidadão chinês, que está cá há duas ou, no máximo, três gerações. A comunidade macaense tem de dizer que esta terra é sua."
Não que a China tenha uma postura de perseguição, muito pelo contrário, adianta. Pequim quer uma aproximação aos países lusófonos (sobretudo Brasil e Angola, devido aos recursos naturais) e escolheu Macau para essa plataforma, "porque tem uma legitimidade histórica para essa função".
Por isso, o papel desempenhado pelos macaenses de ponte entre as comunidades portuguesa e chinesa, e que "foi minimizado" depois da transição, "foi agora reinventado". "Quando a China entender que a ideia de plataforma já não faz sentido, Macau perderá a sua utilidade. Aí, os macaenses já se terão adaptado às novas condições. Irão proteger a sua identidade."
E se a cultura macaense desaparecer, será também Pequim o grande derrotado. "A China terá perdido uma jóia aparentemente insignificante, mas que reflecte a imagem de uma nação multicultural", continua Senna Fernandes. "A raiz desta cultura não tem nada a ver com a China, onde há muitas etnias, mas todas de origem chinesa. É um fenómeno que no próprio solo chinês se tenha formado uma língua de origem portuguesa."
Texto publicado na Pública de 13.12.2009



