Os ânimos estarão ao rubro quando, em Junho de 2014, os escoceses rumarem a Bannockburn para celebrarem os 700 anos da mais mítica batalha contra o Exército inglês. Tal como naquele embate, a Escócia estará prestes a decidir a sua sorte, disputando já não com armas mas com votos a sua independência - uma ambição que nunca abandonou e que agora renasce com o referendo proposto pelo Governo de Edimburgo.
"Os próximos tempos serão verdadeiramente históricos", disse ao PÚBLICO Tom Deville, professor de História Escocesa da Universidade de Edimburgo, explicando que, apesar do muito que pode mudar em dois anos e meio, existem hoje condições para uma mudança profunda no Reino Unido, criado há 300 anos pela união de escoceses e ingleses. "Isto não torna a independência da Escócia inevitável, mas torna-a mais provável do que em qualquer outro momento na história desde 1707", afirmou.
Os alarmes soaram em Londres, em Maio do ano passado, quando, contra todas as previsões, o Partido Nacional Escocês (SNP), liderado por Alex Salmond, conquistou nas eleições de 2011 a maioria absoluta que lhe fugira em 2007. Reforçado, o carismático primeiro-ministro escocês garantiu que cumpriria a promessa de chamar os eleitores a decidir sobre o fim da união política com Londres.
"Decidimos casar com os que estão do outro lado da fronteira, mas agora chegou o tempo de nos divorciarmos", disse à AP Gillian Leathley-Gibb, dona de uma loja de recordações na cidade de Stirling, a curta distância do local onde, em 1314, o rei Roberto I venceu o exército do monarca inglês Eduardo II. "Por mim, construía um muro na fronteira. Eles fazem as leis todas lá em Londres, sem terem uma ideia do que está a acontecer aqui", acrescentou a vizinha Janice Black, repetindo queixas antigas contra o centralismo do Estado britânico.
A Escócia manteve sempre um sistema judicial próprio e, desde 1999, tem ampla autonomia, elegendo um Parlamento com poderes para decidir as suas próprias políticas de saúde, educação e economia. Mas Salmond quer uma Escócia que "fale pela sua própria voz, se erga mais alto no mundo e assuma a responsabilidade pelo seu futuro", como afirmou quando, no final de Janeiro, pôs em marcha o processo para a realização do referendo, no Outono de 2014.
O primeiro-ministro britânico, David Cameron, não ficou impávido perante o desafio e, ainda antes de Salmond formalizar a sua proposta, avisou que só o Parlamento de Westminster poderia convocar um referendo com efeitos constitucionais e que só estava disposto para o autorizar mediante duas condições: a consulta teria de realizar-se "o mais cedo possível" (e não no ano das comemorações) e aos eleitores seria apenas perguntado se querem ou não a independência.
A terceira via
Salmond acusou Cameron de "querer esmagar a Escócia com as suas botifarras" e insiste que os escoceses devem poder pronunciar-se sobre uma terceira opção - a concessão de total autonomia fiscal ao governo de Edimburgo, que ficaria apenas impedido de decidir sobre matérias de Defesa ou Política Externa. Esta é a alternativa preferida pelos eleitores (68 por cento apoiam a ideia), mas Londres teme os efeitos que tal transferência de poder teria para o Reino Unido.
"Os três principais partidos britânicos [todos pró-união] até podem achar que estão a ser mais inteligentes e que a maioria votará "não", mas e se estiverem enganados? Se não apresentarem alternativas, muita gente vai pensar que é tudo ou nada e vão optar pelo tudo", disse ao PÚBLICO Peter Lynch, professor de Política da Universidade de Stirling, para quem "há boas hipóteses de o "sim" vencer".
As últimas sondagens mostram que os pró-independência continuam em minoria (38%), mas com tendência para aumentar. As palavras de Cameron inflamaram os ânimos, mas Lynch vê causas mais profundas para o optimismo nacionalista. Por um lado, "a economia britânica está numa situação bastante má" e as medidas de austeridade funcionarão a favor da campanha do "sim". Por outro, diz, as políticas liberais de Cameron trazem à memória a era Thatcher, "um período desastroso para a maioria dos escoceses", tradicionais eleitores da esquerda e que, depois de décadas a votar nos trabalhistas, se transferiram para o SNP.



