Entrevista: Villepin diz que "o rancor não deve dominar a política"

08.11.2009 - 21:51 Por Clara Barata
Num quarto com vista sobre a Baía de Cascais, num dia cinzento e húmido, Dominique de Villepin, diplomata de carreira e ex-governante francês, falou sobre o seu empenho num novo diálogo com os franceses, inspirado na experiência de Barack Obama.
Veio a Portugal ao Festival de Cinema do Estoril, falar sobre política cultural, e não confessa claramente o desejo de se candidatar como alternativa a Nicolas Sarkozy, seu rival político de há muito, nas presidenciais de 2012, embora seja do mesmo partido, a UMP. Mas formou um clube que o levará a fazer um “tour de France” político nos próximos meses. A 28 de Janeiro, conhecerá a sentença do processo Clearstream, em que é acusado de não ter revelado que era falsa a lista de nomes de políticos que receberiam subornos de uma empresa luxemburguesa, a Clearstream, e onde estava o de Sarkozy.
Mal saiu do processo Clearstream começou a relançar a sua carreira política. Quer ser uma alternativa ao Presidente Nicolas Sarkozy?
A minha preocupação é alargar o debate político. Apesar da ambição de reforma do poder actual, é importante manter um olhar crítico. As intenções podem ser boas, mas os resultados fazem-se esperar. É importante ter propostas, uma visão crítica, debater a situação real e as preocupações dos franceses. O que quero é debater os grandes desafios para o futuro dos franceses e da França.
Que faria de diferente de Sarkozy?
Na política exterior, sempre fui um fervoroso defensor da independência da França, e nesse sentido opus-me ao regresso integral ao comando da NATO. Estou também convencido que, como ponto de partida de uma nova política para o Afeganistão, é preciso preparar um calendário de retirada. O envolvimento dos países ocidentais no Afeganistão é hoje entendido como uma força de ocupação e por isso não responde aos problemas afegãos.
Se bem entendo, não seria tão atlantista como Sarkozy?
Hoje o debate já não é saber se se é ou não atlantista, mas se se obtém resultados ou não. Hoje, querer boas relações com os Estados Unidos e com Barack Obama, que se situa nos antípodas da Administração Bush, é ser capaz de dizer a Obama um certo número de verdades que ninguém lhe diz…
Por exemplo?
Sobre o Afeganistão, por exemplo. É claro que a politica americana está num impasse. Não há soluções para o Afeganistão que passem por uma movimentação de tropas ou pela força militar. E no Médio Oriente precisamos de envolver toda a comunidade internacional para criar um Estado palestiniano, apesar das reticências de Israel. Hoje, ter uma relação transatlântica forte é ser capaz de ter um debate com os EUA, respeitoso mas com propostas. Não é bater-se contra os EUA, mas oferecer-lhe perspectivas de acção.
E isso é uma estratégia para a França ou para a Europa?
O combate da diplomacia francesa junta-se ao da diplomacia europeia. Se a Europa tem dificuldade em afirmar-se na cena internacional é porque tem falta de ambição. Claro que estamos divididos em 27 Estados, mas falta-nos ambição e visão. Mas se os EUA e o mundo não são capazes de avançar, é em parte porque a Europa não consegue assumir as suas responsabilidades.
Tem algum nome a propor para o novo Presidente da União Europeia?
É muito difícil, vê-se bem que os líderes europeus querem escolher alguém que não lhes faça concorrência. Alguém que seja o mais discreto possível. Do que temos necessidade é de um Presidente da Europa nomeado pelos cidadãos da Europa. É a única maneira de uma personalidade encarnar o destino da Europa…
Em eleições directas?
Sim. Penso que é o futuro da democracia europeia. O sufrágio directo obrigará quem for eleito a envolver-se mesmo nos problemas do mundo.


