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Entrevista a Ingrid Betancourt: "Escrevi este livro ora a chorar, ora a rir"

03.03.2011 - 12:06 Por Fernando Sousa

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Ingrid Betancourt Ingrid Betancourt (Foto: Nuno ferreira Santos)
O mero ruído de um helicóptero, os cheiros da terra molhada ou da relva cortada são o suficiente para a antiga candidata à Presidência colombiana voltar aos piores momentos dos seis anos, quatro meses e dez dias que passou nas mãos das FARC.

No primeiro livro, Com Raiva no Coração (2001), Ingrid Betancourt era uma mulher apostada em mudar a Colômbia. Era uma jovem senadora, combativa e disposta a tornar o seu país - desfeito pelo narcotráfico, a corrupção e a guerra - num lugar respirável. Apontava os corruptos e favorecia o diálogo com a guerrilha. Até o Silêncio Tem Um Fim, publicado agora em Portugal pela editora Objectiva, é o relato do preço que pagou pelo sonho: 2321 dias refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Obrigada a caminhadas até os pés sangrarem, privada de comida, de tratamentos, de intimidade, acorrentada e humilhada, chegou a desejar morrer. O seu carácter afirmativo irritava os algozes. Salvou-a o ter recusado a lógica da selva. Foi resgatada pelo Exército colombiano, em Julho de 2008. Hoje ainda quer mudar as coisas, confessou ao PÚBLICO, numa breve passagem por Lisboa.

Olá, Ingrid
Hola.

Disse durante o seu cativeiro que no fim quereria ser uma mulher diferente. É?
Muito. Muito diferente.

Em que é que mudou?
Na consciência de que se pode ser melhor. Vivemos numa sociedade que nos formata. Na selva tomei consciência de uma realidade muito diferente: uma pessoa não tem que ser o que não quiser ser. E isso implica um grande esforço, porque o que não se quer ser é algo que está lá muito em cima, são metas muito ambiciosas, implica uma pessoa enfrentar-se a si mesma e transformar-se. Quando digo que sou uma mulher diferente, isso é mesmo verdade, não tanto por considerar que consegui as mudanças que quis, mas porque me tornei consciente de que me fui transformando e que cada vez o consigo melhor.

E como se processou essa transformação?
Através da dor. É assim que se dá esse despertar da consciência. É ela que permite veres-te de outro modo.

Escrever este livro ajudou-a?
Foi parte dela, sim, sem dúvida.

Uma forma de catarse...
Não foi pensado como tal, mas acabou por ajudar.

Obrigando-a a recordar?
Tive que voltar a mergulhar nesses momentos, com tudo o que estava a sentir, os odores, a luz ou a falta dela, as pessoas à volta, com tudo o que estava a pensar. Sensações muitos tácteis, físicas, emocionais e também espirituais. Houve fases em que disse: "Não, disto não me quero lembrar." Porque não gostei de como me portei, reagi, pensei. Mas concluí que fora o que se passou e, então, quis deter-me nesses instantes, reflectir e perguntar-me o que é que se tinha passado.

E aguentou essa tensão.
Escrevi este livro ora a chorar, ora a rir. Olhe: foi uma espécie de alpinismo espiritual.

Esse passado ainda se manifesta?
Em tudo. Positivamente, pela grande vontade que tenho de viver, e negativamente porque há coisas que uma pessoa não controla, como pesadelos, insónias, odores que não suporto... Quando tenho de ir ao campo, fico cheia de medos, do cheiro da terra molhada ou de vegetais cortados. E não gosto de ouvir helicópteros. São coisas que me produzem angústia e até reacções físicas.

Tem tido apoio psicológico?
Agora menos. Sinto-me muito bem.

Acha que as pessoas entendem o que se passou?
Penso que sim. Temos todos bagagem para sabermos do que se está a falar. Não precisamos de ir aos pormenores mais extremos. Nos acampamentos, por exemplo, estávamos sempre em cima uns dos outros. Ora, as pessoas sabem o que é falta de espaço. E que quando isso acontece os ânimos exaltam-se.

Uns terão entendido melhor, como [os filhos] Mélanie e Lorenzo?
Sim. O meu sequestro foi o de uma família inteira. Marcou-nos de maneira diferente, mas a todos.

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Muito tempo se perde

Muito tempo se perde com a América Latina (entenda-se "hispânica") na nossa ...

aospapeis.blogspot.com

04.03.2011 09:43

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