Cimeira em Hampton Court

Encontro informal dos líderes europeus com ambições reduzidas

27.10.2005 - 08:07 Por Teresa de Sousa, PÚBLICO, Hampton Court

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Blair definiu ontem as suas prioridades e foi apupado Blair definiu ontem as suas prioridades e foi apupado (Odd Andersen/EPA)
Não será a cimeira que Tony Blair ambicionou quando, em Julho passado, dando início à sua presidência europeia com um vigoroso discurso no Parlamento Europeu, desafiou a Europa a "mudar ou morrer". Mas o primeiro-ministro britânico, que preside à União Europeia até ao final do ano, conseguirá hoje, pelo menos, levar os seus pares europeus a um consenso, mesmo que muito geral, sobre o caminho que a Europa deve seguir para enfrentar os desafios da globalização e reconquistar a confiança dos cidadãos europeus.

Salvo qualquer acontecimento inesperado, o encontro informal dos líderes europeus em Hampton Court, nos arredores de Londres, decorrerá num clima de apaziguamento depois do confronto que levou ao fracasso das negociações do orçamento plurianual da União para 2007-2013 na cimeira de Junho passado. Ninguém, nem o Presidente francês Jacques Chirac, que simboliza uma outra visão da Europa, geralmente oposta à do primeiro-ministro britânico, parece vir com a intenção de estragar a festa.

Para acalmar os ânimos, Tony Blair viu-se obrigado a reduzir as suas ambições iniciais para esta cimeira informal de chefes de Estado e de Governo e comprometeu-se a fazer todos os esforços ao seu alcance para conseguir um acordo sobre as perspectivas financeiras para 2007-13 no próximo Conselho Europeu de Dezembro, que concluirá a sua presidência rotativa da União.

Ontem, perante o Parlamento Europeu, o líder britânico definiu cinco grandes "áreas de trabalho" nas quais a União deve concentrar esforços e recursos comuns: investigação científica e tecnológica; políticas energéticas; universidades; políticas de imigração; reforma dos sistemas de segurança social; e, finalmente, a criação de um "fundo de adaptação à globalização" (uma ideia avançada pelo presidente da Comissão) para ajudar os sectores económicos mais vulneráveis à concorrência internacional - um sinal de boa vontade em relação a Paris, que vai também ao encontro dos medos e das preocupações dos cidadãos europeus afectados pelos movimentos de deslocalização e pela concorrência feroz das manufacturas chinesas.

São estes grandes temas que Tony Blair quer ver os seus pares discutir quando se encontrarem a partir da manhã de hoje em Hampton Court. O ambiente será informal, praticamente sem testemunhas, e sem a obrigação de decisões ou conclusões, para que possa corresponder a uma discussão franca entre os líderes e o presidente da Comissão Europeia. Será, de resto, um documento preparado expressamente por Durão Barroso para Hampton Court que servirá de ponto de partida para esta "conversa à lareira" no majestoso palácio junto ao Tamisa, mandado construir por Henrique VIII no século XVI e que serviu de sede à coroa britânica durante mais de 200 anos.

Chirac conciliador

Se ainda restassem dúvidas sobre a disposição do Presidente francês em relação a esta cimeira de tema incómodo para a França organizada pelo seu grande rival britânico, elas ficaram ontem dissipadas. Num artigo longo que fez publicar nos principais jornais europeus (ver edição de ontem do PÚBLICO), Chirac aceita o princípio de que a Europa tem de reformar e fortalecer a sua economia para enfrentar os desafios da globalização.

O Presidente francês apresenta ainda um conjunto de propostas que vão ao encontro de algumas das cinco áreas de preocupação de Tony Blair, como a questão das universidades e da investigação científica e tecnológica.

Com a questão do orçamento comunitário "neutralizada" pela promessa de que se empenhará numa solução em Dezembro e com as "tréguas" francesas, estão reunidas as condições para que Tony Blair possa, logo à noite, tirar a única conclusão que agora verdadeiramente pode ambicionar: que existe um "consenso estratégico" sobre a direcção que a economia europeia deve tomar para fortalecer a sua capacidade de competir num mundo globalizado e em mudança rápida. E que, a partir desse consenso, a Europa estará em melhores condições para mais facilmente debater e redefinir as suas prioridades políticas e orçamentais.

Se tudo correr como o previsto, o primeiro-ministro britânico poderá tentar ainda recuperar uma presidência que tem sido criticada por muitos países como irrelevante.

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