Ultrapassada essa dificuldade que foi a vontade do povo da Irlanda, que teve de votar duas vezes, a União Europeia vai confrontar-se com os seus reais problemas, que nunca nenhum Tratado resolveu e que começam na distância entre Bruxelas e o cidadão comum
Ontem foi um dia de pantominas. Mas pantominas reveladoras.
Pela segunda vez consecutiva, os irlandeses tiveram de repetir o seu voto sobre um tratado europeu. Pela segunda vez consecutiva, acabaram por engoli-lo. Mas ninguém, com seriedade, devia ficar contente, pois todos sabem que em boa parte, senão na maioria, dos países europeus, se o Tratado de Lisboa fosse a votos não passaria. Só votaram os irlandeses porque tinham de cumprir a sua Constituição. Os outros evitaram fazê-lo. E tiveram de novo de votar duas vezes, até votarem “certo”, o que só pode repugnar quem preza o respeito pela vontade dos eleitores.
É triste porque cria uma ilusão de democracia europeia que, por mais retórica que exista, é um mito e continuará a ser um mito. Basta lembrarmo-nos das taxas de abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu de Junho para o confirmarmos: em princípio este será o parlamento com mais poderes e é o único órgão eleito directamente pelos cidadãos de toda a Europa; na prática, quanto mais poderes tem o PE mais os eleitores europeus o ignoram, ficando em casa ou indo votar mais para protestar contra os seus governos domésticos do que para construir uma democracia europeia.
Na sexta-feira os irlandeses votaram sob a pressão da crise, que tocou de forma especialmente violenta uma economia tão aberta como a do seu pequeno país. Contudo, apesar de ser o medo da crise que ajudou à vitória do “sim” na Irlanda, em Bruxelas o nosso compatriota Durão Barroso apressou-se a considerar que a vitória do “sim” “mostra a resposta muito positiva que a Europa está a conseguir dar à crise económica e financeira”. Isto quando a verdade pura e dura é que a Europa não está a dar nenhuma resposta conjunta à crise económica e financeira, divergindo grandemente as receitas (e o ritmo da cura) de país para país.
Igualmente extraordinário foi o comentário de José Sócrates – extraordinário e revelador: “Essa notícia é muito importante para nós portugueses, muito importante para a Europa e também muito importante para mim.” Extraordinário porque se fosse assim tão importante para os portugueses, os portugueses teriam sido chamados, tranquilamente, a referendar o Tratado, ao contrário do que sucedeu. Revelador por ser importante para o próprio José Sócrates, pois mostra até que ponto este acha que é importante apesar de o essencial do trabalho que permitiu chegar ao acordo de Lisboa se ter ficado a dever à Alemanha e a Angela Merkel. Enfim, já conhecemos o primeiro-ministro – e se há alguma surpresa na frase é a referência a si próprio só vir em último lugar.
Na verdade a única coisa verdadeiramente importante a que o “sim” irlandês abre as portas é ao fim dos álibis que os dirigentes europeus têm utilizado até à exaustão. Para a burocracia de Bruxelas, cada vez mais em roda livre – esta semana, por exemplo, entendeu que deveria legislar sobre o nível máximo de som de aparelhos como os iPod, um delírio total… –, tudo o que não tem corrido bem na Europa tem sido porque faltariam as fórmulas de decisão milagrosas que o Tratado consagraria. Ora isto é um embuste: o que corre mal na Europa, desde a forma muito diferenciada como a crise foi abordada até às profundas divergências sobre política externa, deriva de a Europa ter querido queimar etapas e acreditado que mais integração política e um rápido alargamento podiam e deviam andar a par. Não podiam, como está mais do que provado.
Daí que, apesar de o Tratado de Lisboa ser um tratado medíocre, um mal menor, que nunca conseguirá funcionar como base para um mitificado “patriotismo europeu”, quando estiver aprovado – algo que ainda deverá levar alguns meses, apesar do “sim” irlandês – tem a enorme vantagem de colocar os dirigentes europeus face às suas responsabilidades. Sem desculpas ou escapatórias.
Nessa altura veremos, por exemplo, como assumirão não o que é fácil e longínquo (por exemplo: a Europa celebrou Quioto e depois quase nenhum país cumpriu com as metas aí traçadas), antes o que é difícil e imediato. Da crise económica, que não desapareceu, ao Afeganistão. O passado recente de acrimónia e divergências não permite antever um futuro radioso apenas porque, desta vez, uma mão-cheia de irlandeses não repetiu a ousadia de se opor à vontade dos grandes países. Ou, para ser mais exacto, à vontade dos dirigentes dos grandes países.


