"É evidente que Israel não está a respeitar o período de tréguas", diz Miguel Portas

12.01.2009 - 15:47 Por Francisca Gorjão Henriques
A visita não durou mais de duas horas, mas foi o tempo suficiente para o eurodeputado do Bloco de Esquerda Miguel Portas tirar algumas conclusões: "Israel não está a respeitar o período de trégua" de três horas diárias, e tem feito "bombardeamentos em cima da zona humanitária".
Um grupo de oito eurodeputados esteve ontem entre as 14 e as 16 horas no Sul de Gaza: "Foi a primeira delegação política a furar o bloqueio de informação do que se está a passar", diz ao PÚBLICO Miguel Portas, numa entrevista telefónica a partir do Cairo.
Foi preciso quebrar a resistência das autoridades israelitas, que ainda ontem de manhã argumentavam não poder garantir a segurança da delegação de deputados, liderada por Luisa Morgantini, vice-presidente do Parlamento Europeu (que na quarta-feira se reunirá para discutir a questão). "Mas a UNRWA [agência da ONU de apoio aos refugiados palestinianos] deve ter feito grande pressão", conta.
E foi uma coluna de veículos da agência que foi buscar os políticos à fronteira entre o Egipto e Gaza, em Rafah. "Durante esse período [de duas horas] apanhámos com três bombas da aviação israelita na zona de Arafat [perto de Rafah) e outra praticamente em cima do Egipto. Não sei como foi no resto da Faixa de Gaza, mas é evidente que Israel não está a respeitar o período de trégua".
Também foi evidente que os palestinianos "nem pestanejaram" quando uma bomba caiu a um quilómetro deles: "É tragicamente normal".
O grupo foi levado para um dos 26 centros de ajuda aos refugiados geridos pela ONU, "um centro de distribuição de alimentos, onde de um lado está um quarteirão que foi arrasado no primeiro dia de combates [27 de Dezembro] e do outro um que foi destruído há três dias. Há bombardeamentos em cima da zona humanitária", denuncia Portas.
Quando lançou a operação Chumbo Endurecido, os militares israelitas proibiram a presença de jornalistas estrangeiros, apesar de o Tribunal Supremo se ter pronunciado contra a proibição. Por iniciativa dos Repórteres Sem Fronteiras, seis dezenas de órgãos de informação internacionais lançaram na sexta-feira um apelo para que os jornalistas pudessem trabalhar no território. Não admira por isso que haja uma sensação de isolamento entre os palestinianos.
Essa poderá ser uma das razões para que os eurodeputados tenham sido recebidos "em festa" num centro que acolhe "1215 mulheres e crianças, sem casa ou sem família, ou sem as duas coisas... Pessoas que estão a viver em salas, a dormir em colchas no chão". Segundo as Nações Unidas, até agora os combates levaram 25 mil pessoas a procurar abrigo nos centros da UNWAR, instalados em escolas ou algumas instalações da agência.
A delegação ouviu dos membros palestinianos da ONU que "esta guerra só pode fazer um número desproporcionado de vítimas civis porque é uma guerra urbana. Membros do Hamas estão espalhados entre civis, estão com as suas famílias, com os seus vizinhos".
Outros dos argumentos de alguns funcionários da UNRWA: "É evidente que há problemas de segurança em Sderot [Sul de Israel], mas esses têm abrigo. Aqui não".
Miguel Portas refere os "resultados inevitáveis" deste conflito: um cessar-fogo; o aligeiramento da situação humanitária em Gaza, e o retomar as conversações para a formação do governo de união nacional que foi discutido em Meca (depois de o Hamas ganhar as eleições, em 2006). Até lá, muito pode acontecer. "Pode ser como nos três últimos dias da guerra no Líbano, quando Israel lançou 40 por cento do material de toda a guerra".


