Duelo esquerda-direita nas eleições mais renhidas do México

02.07.2006 - 10:03 Por Fernando Sousa, PÚBLICO
O México vai hoje às urnas em eleições que poderão entrar para a história. A luta é entre dois países diferentes que o mandato do Presidente cessante, Vicente Fox, falhou em aproximar. E até entre dois modelos opostos como o mostrou a mais renhida campanha da história eleitoral mexicana, longa, de 160 dias, milionária, com um custo total à roda de 51 milhões e "suja", segundo todos os analistas, desde que começou.
Os dois principais candidatos, do Partido da Revolução Democrática (PRD, esquerda) e Partido de Acção Nacional (PAN, direita), Andrés Manuel López Obrador, 52 anos, e Felipe Caldéron, 43, que de acordo com os últimos estudos de opinião ombreiam nas intenções de voto, são o espelho de dois Méxicos, de dois mundos muito diferentes que sobraram de um passado tumultuoso que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) não fez senão gerir em seu proveito - talvez por isso mesmo o ponta-de-lança do PRI, Roberto Madrazo, venha só em terceiro lugar.
Separa-os as profundas diferenças ideológicas que acompanharam a história do país, onde permanece por resolver uma enorme desigualdade social, afirmava há dias o historiador Manuel Villalpando ouvido pela IPS. Dos mais de 103 milhões de habitantes, quase metade, 40 por cento vive na pobreza, a fonte desse percurso difícil pejado de revoltas e recontros políticos e armados entre revolucionários e reformistas, liberais e conservadores, esquerda e direita.
Obrador e Calderón são os herdeiros dessas tensões, que o priísmo não fez mais do que tirar proveito, e que Fox não atenuou, que agora tentam ajustar contas não pelas armas, ainda que alguns observadores temam pelas consequências de um resultado pouco claro (ver texto ao lado), mas pelos votos. Madrazo será em princípio por tudo isso a vítima do escrutínio, o primeiro organizado por instituições independentes e regras aceites por todos os partidos, e acompanhado por milhares de observadores, centenas deles estrangeiros.
Candidato da paz e certeza
Em quase todos os momentos da discussão pública das ideias, principalmente nos debates televisivos, os dois mostraram programas muito diferentes.
Calderón, um político precoce que começou a carreira política aos oito anos a distribuir panfletos do PAN, estudou em Harvard, nos Estados Unidos, a universidade onde foram moldados muitos líderes da América Latina, prometeu entre outras coisas atrair os investimentos estrangeiros, promover reformas legais de grande envergadura para "modernizar" o sector laboral, o tributário e o da energia.
Assumiu-se como o candidato da certeza, da paz, do respeito da lei e da estabilidade, da mudança na continuidade. Comparou o adversário ao líder venezuelano Hugo Chávez, mas dispôs-se a fazer um governo de coligação com a oposição.
Uma frase que diz bem da sua determinação: "Sou como os bons cavalos: quanto mais os obstáculos são altos, mais salto e os transponho a todos."
Obrador, licenciado em Ciências Políticas, defensor dos direitos indígenas, em particular dos Contales, antigo alcaide da Cidade do México e autor quando de importantes reformas na área social, tomou outro rumo. Adoptou como slogan da campanha "Primeiro os Pobres", o que alguma imprensa aproveitou para lhe chamar o "Robin Hood" mexicano.
Argumentando que o actual modelo económico não serve garantiu que todo o seu trabalho será "exigir aos ricos, aos de cima", que se comportem com consciência social, e desmontar a pobreza e a iniquidade social. Adversário conhecido do Tratado de Livre Comércio, afirma que o vai rever. Crítico das injustiças sociais, diz que "a lei é para o homem e não o homem para a lei" e que "uma lei que não distribui justiça não serve".
210 mil pessoas vs 30 mil
No México, a lei não funciona porque não se respeita, não se aplica ou porque é injusta, escreveu na semana passada o correspondente do diário espanhol El Mundo. Há prisões cheias de reclusos que nunca viram um juiz, polícias predispostos ao suborno e pessoas condenadas por roubar um urso de peluche enquanto políticos corruptos vivem na mais completa impunidade.

