Dois responsáveis holandeses da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) foram detidos no Sudão, um deles na região de Darfur. Os funcionários e a organização são acusados de terem elaborado falsos relatórios e de atentarem contra os interesses do Estado sudanês.
Paul Foreman, chefe da missão holandesa dos MSF no Sudão, foi detido ontem em Cartum, tendo sido libertado pouco depois mediante o pagamento de uma caução. O responsável não pode, no entanto, abandonar o país.
Foreman é acusado de crimes contra o Estado sudanês, ao que tudo indica devido ao relatório que elaborou recentemente sobre as violações sistemáticas praticadas pelas milícias árabes pró-governamentais na região de Darfur.
Segundo um comunicado dos MSF, a organização é acusada de "espionagem, publicação de relatórios falsos e de atentar contra os interesses do Estado sudanês". Os MSF "estão profundamente desagradados com estas acusações injustificadas, que rejeita em absoluto", lê-se na nota emitida pela organização não-governamental.
Já depois de divulgado este comunicado, a organização anunciou a detenção de um segundo funcionário, o holandês Vincent Hoedt, coordenador regional da delegação dos MSF em Darfur. Em declarações aos jornalistas em Genebra, Aymeric Péguillan, porta-voz da organização humanitária, revelou que Hoedt foi detido esta manhã em Nyala.
Para o director-geral da delegação holandesa dos Médicos Sem Fronteiras, estas detenções são “absolutamente inaceitáveis” e “prejudicam gravemente a capacidade da organização de fornecer auxílio humanitário” aos milhares de refugiados de Darfur. Geoff Prescott acusa, por isso, o Governo sudanês de “estar a punir os trabalhadores humanitários pelo seu trabalho a favor das vítimas da guerra em Darfur”, uma região palco há mais de dois anos de uma guerra civil que opõe dois grupos rebeldes locais às milícias árabes pró-governamentais.
Reagindo à detenção de Paul Foreman, a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Louise Arbour, afirmou estar “seriamente preocupada” com a atitude de Cartum. “Tomar as organizações humanitárias como alvo quando o seu único trabalho é o de ajudar a população de Darfur é uma forma de desviar a atenção para os verdadeiros criminosos, que são aqueles que continuam a violar, matar e a pilhar com toda a impunidade”, escreve a responsável.
No relatório que elaborou em Março passado, o chefe da missão holandesa do MSF denunciava que a organização tinha assistido nos últimos quatro meses 500 mulheres vítimas de violação. No relatório, intitulado “A Violência Sexual em Darfur”, Foreman relatava que a maioria das vítimas indicou à organização que os violadores tinham sido elementos das milícias árabes ou os próprios soldados sudaneses.



