Divididos e derrotados socialistas espanhóis escolhem hoje novo líder

04.02.2012 - 09:34 Por Sofia Lorena
Chacón tem mais apoios e pode ser a primeira mulher a liderar o PSOE. Mas há dezenas de indecisos e muitas manobras de bastidores.
Previsões de um dia de sol para um congresso a decorrer num hotel chamado Renascimento, bem perto do parque temático Isla Mágica. Cenário ideal para um partido que se quer mostrar unido e renovado apesar de ir a votos dividido e com dois candidatos do aparelho, e apenas três meses depois da maior derrota eleitoral de sempre, nas legislativas de Novembro, que deram a maioria absoluta ao conservador Mariano Rajoy.
O 38.º Congresso do Partido Socialista Espanhol arrancou ontem à tarde com o lema A Resposta Socialistae discursos de apelo à unidade e renovação. Mas nem o partido aproveitou o desaire eleitoral para lançar um debate interno que permitisse uma verdadeira renovação - e a apresentação de uma alternativa real - nem se antevê que de Sevilha saia um partido unido. Aliás, é tão desavindo que o PSOE se prepara hoje para ouvir os discursos dos candidatos a líderes, a ex-ministra da Defesa Carme Chacón, e o ex-"número dois" e candidato derrotado às legislativas, Alfredo Pérez Rubalcaba, que quase ninguém arrisca apostar num vencedor.
"Os discursos no congresso serão muito importantes", defende o politólogo Anton Losada, ouvido pela AFP. Vários colunistas prevêem o mesmo e sublinham a importância do momento-chave, as 11h de hoje, altura em que estão previstas as intervenções. A ordem será decidida por sorteio - e também isso é analisado como potencialmente determinante.
Antoni Gutiérrez-Rubí, perito em comunicação política, lembrava ontem no El Paíso impacto do discurso de José Luis Rodríguez Zapatero, que no congresso de 2000 falou em último lugar, "rompendo o ambiente de pessimismo e abatimento socialista". "Companheiros e companheiras, não estamos assim tão mal!", começou por dizer o então candidato a secretário-geral, que ontem foi a Sevilha despedir-se da política.
"Votem em quem votarem, todos serão vencedores", gritou aos delegados José Antonio Griñán, presidente do governo autónomo da Andaluzia. Marcelino Iglesias, secretário da direcção, garantiu que o partido sairá "mais forte e unido". Para além das palavras, houve lugar ao momento de aparência de unidade: o encontro de Rubalcaba e Chacón, que se sentaram juntos e conversaram pela primeira vez desde o início do despique.
Quando hoje se votar, termina uma campanha entre veteranos: Rubalcaba já ocupou quase todos os cargos no partido e no Governo (e tem o apoio do histórico Felipe Gonzaléz), mas é com Chacón que estão todos os próximos de Zapatero. A candidata que se apresenta como o rosto da renovação fez o percurso típico de militante, deputada, vice-presidente no Parlamento e ministra.
Votos e pressões
Nos bastidores, a guerra prosseguia. Nos últimos dias, ambas as candidaturas têm garantido ter apoios para ganhar - dizem estar em vantagem mais ou menos por 100 votos e admitem ter detectado 70 a 80 indecisos.
A decisão cabe a 956 delegados e o voto é secreto. "Claro que há contactos, então não é normal?... E os restaurantes de Sevilha devem estar que nem lhe digo", afirmou Rubalcaba à rádio Cadena Ser. Recusando da sua parte quaisquer "pressões e ameaças" sobre os delegados - o secretário do PSOE de Sevilha denunciou "pressões ilícitas, ilegais e imorais" das candidaturas -, afirmou estar "seguro de que os delegados vão votar em quem julgarem, em consciência, ser o melhor para o PSOE". Alguns militantes já avisaram que não votarão em que se espera que votem.
O trunfo de Chacón pode ser o facto de chegar ao congresso pelo menos com a ilusão de vantagem - ninguém quer dar o seu voto ao derrotado.


