Diplomatas britânicos em Moscovo acusados de espionagem

23.01.2006 - 17:50 Por PUBLICO.PT, Com AP e Reuters
Os serviços secretos russos acusam funcionários da embaixada britânica em Moscovo de usarem a sua imunidade diplomática para levar a cabo actividades de espionagem no país e para financiarem secretamente organizações não-governamentais russas.
A denúncia foi feita numa reportagem transmitida ontem pela televisão pública russa, contendo alegadas gravações de câmaras de segurança, nas quais quatro supostos funcionários britânicos são filmados a recolher informações secretas.
Nas gravações, que fazem lembrar filmes de espionagem da Guerra Fria, é mostrada uma falsa pedra que no seu interior esconde equipamento electrónico, aparentemente um transmissor capaz de emitir até 20 metros. Segundo o autor da reportagem, ao passarem junto ao transmissor, os espiões conseguiriam descarregar as informações para pequenos computadores de bolso, sem levantar qualquer suspeita.
A televisão identifica vários funcionários britânicos que passaram pelo local desde que a pedra foi detectada pelos serviços secretos russos e, numa outra sequência, mostra um jovem, identificado como um dos diplomatas envolvidos, a recolher a pedra do local onde estava depositada.
Segundo a televisão, um funcionário russo, alegadamente envolvido no caso, terá sido detido e já confessou estar a passar informações classificadas à embaixada britânica.
O autor da reportagem diz também ter tido acesso a cópias de documentos comprovando que o Reino Unido transferiu dinheiro para 12 ONG no país, adiantando que um dos quatro diplomatas identificados nas imagens era o principal contacto das organizações com Londres.
O porta-voz dos serviços secretos russos (FSB, ex-KGB) já confirmou o teor da reportagem, adiantando ter fornecido à televisão as informações noticiadas.
“Esta é a primeira vez que os apanhamos em flagrante enquanto eles contactam com os seus agentes aqui e que obtemos provas de que estão a financiar organizações não-governamentais”, declarou Sergei Ignatchenko, porta-voz do FSB.
Questionado sobre o objectivo deste financiamento estrangeiro, o responsável não quis pronunciar-se, garantindo apenas que a questão “vai ser analisada com muito cuidado”.
Contudo, as organizações referenciadas afirmam que esta é mais uma iniciativa da campanha de difamação lançada nos últimos meses pelo Kremlin.
Em declarações à AP, Lyudmila Alexeyeva, chefe do Moscow Helsinki Group, uma das ONG citadas na reportagem como tendo recebido financiamento de Londres, afirma que o Governo “está a preparar a opinião pública para encerrar a organização, ao abrigo da nova legislação”.
Confrontado com as insistentes críticas aos atropelos às liberdades cometidas no país, Putin acusa as organizações de defesa dos direitos humanos de estarem a trabalhar ao serviço do ocidente. Nesse sentido, fez aprovar no Parlamento uma lei de controlo das ONG, que poderão ser ilegalizadas caso se prove que recebem fundos do exterior.
Confrontado com a reportagem emitida ontem pela televisão russa, o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânicos rejeitou que a sua relação com as ONG russas seja imprópria, garantindo que o apoio que lhes tem dado se destina a promover o desenvolvimento da sociedade civil russa. Em relação ao paradeiro e à actuação dos seus diplomatas em Moscovo, Londres não tece quaisquer comentários.


