Cuba avisou hoje a União Europeia (UE) de que só haverá um diálogo político quando forem "definitivamente eliminadas" as sanções impostas a Havana.
"Enfatizamos que as chamadas sanções aplicadas a Cuba em Junho de 2003, e que agora permanecem meramente suspensas, jamais poderão ser aplicadas por serem injustas e insustentáveis. Não será possível chegar ao diálogo político, proposto pela União Europeia, até serem definitivamente eliminadas", afirmou o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Rodriguez Parrilla.
No encerramento das segundas jornadas dos Dias Europeus do Desenvolvimento, o governante cubano advertiu: "Se a União Europeia estiver genuinamente interessada na promoção da cooperação internacional, deveria remover os obstáculos que criou e que impedem a cooperação em projectos conjuntos com Cuba em terceiros países".
Rodriguez Parrilla teme que a UE torne impossível a normalização de relações com Cuba caso se "deixe levar pelas acções inconcebíveis" que os Estados Unidos têm tentado realizar.
"Nenhuma diferença com o sistema político cubano teria que impedir à UE uma relação com Cuba baseada no pleno respeito à soberania nacional das partes, na não ingerência nos seus assuntos internos e na solução das diferenças pela via do diálogo e da negociação", criticou Rodriguez Parrilla, convidado pela Comissão Europeia para o encerramento das jornadas.
Sobre as alterações climáticas, tema central destas jornadas que começaram anteontem, o vice-ministro cubano classificou como "egoísta, imoral e ineficaz" a pretensão dos países ricos de comprarem aos mais pobres certificados de redução de emissões poluentes. Criticou ainda que os países mais desenvolvidos "tentem estabelecer quotas [para os países em desenvolvimento] em vez de contribuírem para o seu desenvolvimento económico e social".
O governante apelou para uma mudança no uso total de energia, que disse ser possível, dando o exemplo cubano da substituição de 9,5 milhões de lâmpadas e mais de três milhões de electrodomésticos de alto consumo.
Entre o rol de críticas, Parrilla apelidou de "criminosa" a iniciativa do Presidente norte-americano, George W. Bush, de converter alimentos em combustíveis (biocombustíveis), num mundo onde há 850 milhões de famintos. "O mundo investe em gastos militares mais de um milhão de milhões de dólares (...) Em cosméticos são gastos 123 mil milhões e em alimentos para animais de estimação são gastos 17 mil milhões de dólares", exemplificou.
No final deste discurso, o comissário europeu para o Desenvolvimento, Louis Michel, mostrou-se incomodado com as palavras do governante cubano, sublinhando que o encontro se destinava a debater as alterações climáticas.
Em declarações à margem do encontro, o ministro do Ambiente português, Nunes Correia, classificou as afirmações de Parrilla como "o ponto de vista do governo cubano". "A Europa, com o seu sentido democrático, abre o palco a quem quer expor o seu ponto de vista. Ele disse coisas com que não concordo, mas acho útil que as venha aqui dizer", afirmou Nunes Correia.



