Morte do marido resgatou carreira política da Presidente

Cristina Kirchner a caminho da reeleição com votação histórica na Argentina

23.10.2011 - 15:39 Por Rita Siza

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Cristina Kirchner soube transformar a comoção pública com a morte de Nestor em aceitação popular Cristina Kirchner soube transformar a comoção pública com a morte de Nestor em aceitação popular (Andres Stapff/REUTERS)
Uma sondagem à boca das urnas dá vitória à primeira volta nas eleições presidencias argentinas a Cristina Fernández de Kirchner com 55 por cento. Será reeleita e entrará para a história como a política mais votada desde o regresso da democracia ao seu país, em 1983.

Um feito extraordinário e notável, principalmente tendo em conta que durante o seu mandato a taxa de aprovação da Presidente chegou a bater nos 20 por cento. Um escândalo de financiamento partidário, o prolongado confronto com os agricultores, o constante braço-de-ferro com a imprensa, a cavalgada da inflação... uma sucessão de casos foi erodindo o Governo e a popularidade de Cristina, aparentemente condenando-a à derrota e irrelevância política.

Foi a morte inesperada do seu marido e mentor político, Nestor Kirchner, há um ano, que “resgatou Cristina” de volta para a ribalta, explica Marcos Novaro, director do Centro de Investigação Política da Universidade de Buenos Aires, à BBC Mundo.

Sucessora do marido na presidência, a capacidade de liderança de Cristina, de 58 anos, esteve sempre ensombrada por Nestor: desde a tomada de posse, no fim de 2007, a opinião pública via-a como um fantoche manipulado por Kirchner (que foi Presidente entre 2003 e 2007 e especulava-se que pensaria voltar a candidatar-se no final do mandato da mulher).

Viúva e aútónoma
Quando Nestor Kirchner morreu, “Cristina pode converter-se na líder autónoma e independente que nunca tinha sido. E as pessoas puderam descobrir a marca da sua governação, até porque ela inteligentemente corrigiu muitas das faltas que lhe apontavam”, recorda o investigador.

No último ano, a popularidade de Cristina Kirchner disparou. A Presidente soube transformar a comoção pública com a morte de Nestor em aceitação popular: abandonou a postura rígida e distante com que iniciou o mandato e revelou-se vulnerável e espontânea. Mas, como argumenta a revista "The Economist", o segundo fôlego da carreira política da Presidente viúva – Cristina passou a vestir de preto da cabeça aos pés – também teve muito a ver com a sorte. No caso, a sorte de estar no lugar certo à hora certa para colher os frutos da política monetária e fiscal definida pelo Governo de Eduardo Duhalde para estabilizar a economia depois dos duros golpes do “default” e desvalorização cambial de 2001.

O crescimento económico de nove por cento em 2010, a redução da taxa de desemprego e a percepção generalizada de desenvolvimento e bem-estar (apesar de uma inflação que economistas independentes colocam em 20% mas o Governo afirma ser de apenas 10%) tornaram a Presidente argentina virtualmente imbatível. A opinião pública deixou de prestar atenção às alegações de enriquecimento ilícito e acusações de corrupção que ciclicamente surgem contra a família Kirchner.

O favoritismo de Cristina Kirchner ficou logo patente nas primeiras eleições primárias, abertas, simultâneas e obrigatórias da história da Argentina, realizadas no passado mês de Agosto. A Presidente candidata à reeleição, representante da (peronista) Frente para a Vitória, obteve 50,2 por cento dos votos. Deixou a uma enorme distância de 38 pontos o social-democrata Ricardo Alfonsin, da coligação Unión Cívica Radical, segundo classificado com 12,2%, praticamente "ex-aequo" com o antigo Presidente Eduardo Duhalde, candidato dos dissidentes peronistas, que teve 12,1%. Em quarto lugar ficou o socialista Hermes Binner, com 10,5 % dos votos nacionais – mas agora as sondagens dão-lhe16% das intenções de voto, logo atrás de Cristina Kirchner (que tem 52%).

Essa desproporção ficou patente durante a campanha eleitoral, caracterizada por uma espécie de separação das águas entre a candidatura de Cristina Kirchner – que nem se deu ao trabalho de fazer comícios, fazendo passar a sua mensagem em anúncios televisivos cuidadosamente produzidos – e o bloco da oposição. Aí, a corrida é realmente competitiva: como notava a imprensa, só no último dia houve alguma surpresa e emoção, com uma “dura batalha final pelo voto da oposição”.

Hora da verdade para "kirchnerismo”

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Anónimo

23.10.2011 22:49

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