Tóquio conseguiu evitar o apagão, mas a cidade só está calma à superfície. A terra voltou a tremer e, perante tantas incertezas, “as pessoas estão com medo”.
O pior é não saber a verdade, dizem os habitantes de Tóquio que, uma semana depois do sismo e do maremoto que criaram uma emergência nuclear, não têm dados suficientes para tomar decisões. Ainda ontem o ministro do Comércio, Banri Kaieda, anunciou que deveria ocorrer um grande apagão no país e sobretudo em Tóquio. Pouco depois, um porta-voz do Governo desdramatizar: eram poucas as probabilidades de tal apagão acontecer. E de facto não aconteceu.
Perante as incertezas, os que podem continuam a sair do país. As agências noticiosas dão conta de filas no centro de passaportes da cidade. “Subitamente começámos a ter mais pedidos, 1,5 vezes mais do que o habitual”, disse à Reuters um funcionário, Shigeaki Ohashi. E há quem chegue ao aeroporto sem reserva ou destino escolhido, optando pelo que houver para se afastar da cidade e do país até estar resolvida a crise nuclear nas centrais danificadas pela catástrofe natural – sobretudo Fukushima –, que fizeram subir os níveis de radiação na capital japonesa até três vezes mais do que o considerado normal.
Um português acabado de chegar a Osaka ido de Tóquio, que fez chegar o seu depoimento ao PÚBLICO online via Facebook, confirma os cortes de luz na capital do Japão e que as ruas estão vazias. “As pessoas estão com medo. Os estrangeiros estão apavorados e a tentar sair de Tóquio, muitos deles em direcção a Osaka”.
França , Reino Unidos e Estados Unidos anunciaram estar preparados para retirar os seus cidadãos que queiram sair do país.
O grande apagão foi evitado com apagões parciais rotativos, quer nas prefeituras que compõe Tóquio, cidade de mais de 35 milhões de habitantes, quer no resto do país. A capacidade da companhia de electricidade foi seriamente afectada com os danos nas centrais nucleares, explicou o ministro Banri Kaieda e ainda há 850 mil de habitações sem luz eléctrica. (Um milhão e meio não tem água potável). A população, incitada a poupar o mais que puder, está perante um dilema: as temperaturas estão a descer abaixo dos zero graus. As luzes públicas também foram apagadas, transformando a paisagem de Tóquio, que está irreconhecível sem os seus néons. .
A cidade esvaziou, em relação à movimentação habitual constante de milhares de pessoas, pois muitas famílias optam por abastecer-se do máximo de alimentos e ficar em casa; as empresas também permitiram que parte dos seus funcionários trabalhem a partir das suas residências. Os número de comboios foi reduzida.
Muitas escolas forma fechadas e lojas encerraram por estarem sem stocks. Porém, ainda se verifica normalidade, como mostra um vídeo realizado por um espanhol que se identificou nas redes sociais como Marc e que partiu de Tóquio para Osaka por insistência da família. Diz ele que está tudo “normal” e Tóquio e o vídeo mostra uma mercearia com frutas e vegetais à venda, um homem que passa de bicicleta, crianças a caminho de uma escola em funcionamento, uma mulher a passear um cão. Marc mostra ainda a estação de comboios onde compra um bilhete sem filas e viaja num comboio que tem muitos lugares vazios. Pelo caminho, lê a revista que comprou no quiosque da estação e liga o computador.
“É como se fosse domingo”, como disse o taxista Kazushi Arisawa, de 62 anos. Um domingo permanente numa cidade onde, ontem, a terra voltou a tremer e os nervos aumentam.
notícia actualizada às 18h00



