Os norte-coreanos que recentemente chegaram ao Sul vivem num mundo de contradições. Foram criados na reverência a Kim Jong-il, mas a sua luta diária leva-os a acreditar que ele é um déspota brutal. Dizem que a Coreia do Norte está a ficar fora de controlo, a economia está disfuncional, as pessoas suspeitam umas das outras porque qualquer um pode ser informador.
Também falam numa certa sensação de normalidade. A maioria saiu à procura de uma vida melhor, mas não tem a certeza se consegue vingar num sistema capitalista competitivo.
Seguem-se relatos de exilados, com falsas identidades por medo de que a família que ficou sofra retaliações.
O Querido General “tão fraco”
É um crime político falar sobre a família do líder, Kim Jong-il, mas muitos refugiados dizem que a maioria da população está provavelmente ciente das notícias dos media estrangeiros que dão conta que o filho mais novo, Kim Jong-un, deverá substitui-lo.
A maioria não faz ideia que Kim, com 67 anos e que deverá ter sofrido um acidente vascular cerebral em Agosto, tem três filhos. “Em Pyongyang temos como garantido que a liderança será herdada”, disse Park, adiantando que sabia que Kim tinha duas filha e um filho chamado Jong-nam (o filho mais velho, que devido a um escândalo com um passaporte falso terá deixado de ser o preferido para a sucessão).
“Eu não diria que Kim Jong-il é mau”, afirmou Choi, outra refugiada. “São as pessoas que o rodeiam que não estão a fazer bem o seu trabalho. Dão informações falsas”. Choi disse saber por experiência própria que os dados sobre a produção de cereais são muitas vezes falsificados “para não preocupar o General”. Muitos ainda chamam Kim de “General”, como lhes ensinou a propaganda do Estado.
Park sabe que Kim fica muitas vezes acordado a trabalhar, durante a noite, preocupado com as pessoas. “É verdade que ele se sacrifica muito pelo povo”, diz. “O General envelheceu muito”, comenta quando olha para uma fotografia em que se vê um Kim já possivelmente debilitado pelo AVC.
Soldados para lutar?
A Coreia do Norte é o país mais militarizado do mundo, com um Exército de mais de 1,1 milhões de soldados.
“Quando olho para eles, o que vejo é um exército que irá fugir de uma guerra”, comentou Kim. “Talvez tenha o verdadeiro exército preparado para a guerra escondido noutro sítio”. Moral baixo e corrupção entre os militares estão tão generalizados que passou a ser a norma e não a excepção os soldados pedirem subornos aos comerciantes que passam a fronteira com a China.
“Dizemos que está alguma coisa errada contigo senão poupas o suficiente em dez anos de serviço na fronteira para voltar a casa, casar e começar uma família”, diz Kim.
Noites de telenovela
Apesar dos esforços das autoridades para manter distantes as influências estrangeiras, há muitos menos segredos sobre a vida fora do país. Telenovelas da Coreia do Sul são um entretenimento popular para os que têm a sua própria antena parabólica ou leitores de DVD. Mas a polícia que procura programas estrangeiros proibidos corta a electricidade em blocos de apartamentos inteiros e prende quem é apanhado com um DVD ilegal.
“À noite, saíamos e virávamos a antena ligeiramente mais em direcção à China”, adianta Kim, para que a família possa captar as novelas do Sul que a televisão chinesa também passa.
Uma vida melhor
O fornecimento de alimentos pode ter melhorado ligeiramente devido a melhor condições meteorológicas, mas Jo diz que a comida é ainda difícil de encontrar. “Ainda no ano passado houve uma campanha na província de Kangwon para se conseguir duas refeições por dia. Às vezes, os soldados não comiam mais que três batatas”.


