Continuam a surgir relatos que apontam para abusos sistemáticos do Exército israelita em Gaza

22.03.2009 - 23:08 Por Ana Fonseca Pereira
O Exército israelita garante que são exagerados os relatos que apontam para uma diminuição dos padrões de ética militar nas suas fileiras. Mas investigações da imprensa e das organizações de defesa dos direitos humanos reforçam as suspeitas de que foram cometidos abusos sistemáticos na ofensiva contra a Faixa de Gaza.
O Canal 10 da televisão israelita divulgou, no sábado, um documentário com imagens de um briefing militar antes do início da operação, no qual o comandante de uma companhia exige “agressividade” aos seus homens. “Se estiver alguém suspeito no andar de cima de uma casa temos de a bombardear. Se tivermos uma casa suspeita, temos de a deitar abaixo”, ordena. “Não pode haver hesitações.”
As imagens estão a alimentar a polémica que estalou na quinta-feira, dia em que jornal "Ha’aretz" começou a divulgar testemunhos de soldados que admitem ter morto civis em Gaza e destruído casas, no cumprimento de ordens. O procurador militar está a investigar as denúncias, mas há grupos a exigir um inquérito independente.
A Breaking the Silence, organização de antigos militares, contou ao "The Guardian" ter conseguido o testemunho de 15 soldados que corroboraram as denúncias de mortes indiscriminadas e vandalismo pelas forças israelitas. “Não estamos a falar de umas unidades terem sido mais agressivas do que outras, mas a denunciar uma política. De tal forma que os soldados nos disseram que tiveram de refrear as ordens que receberam” dos oficiais, explicou Mikhael Manekin, activista do grupo.
O "Ha’aretz" descobriu, entretanto, outro indício da violência gratuita de que falam estes testemunhos: soldados de várias unidades mandaram fazer "T-shirts" com imagens de crianças mortas ou de mulheres grávidas transformadas em alvos.
O jornalista Uri Blau, que assina a investigação, diz que esta é uma prática habitual para assinalar o fim da recruta ou o fim de uma missão. Mas as encomendas que chegaram nos últimos meses às lojas de estampagem, muitas com o aval das hierarquias, retratam uma violência sem precedentes. Uma camiseta mandada fazer por uma brigada de snipers mostra uma mulher grávida na mira de uma caçadeira. Por baixo pode ler-se: “Um tiro, duas mortes”.
Outra "T-shirt" retrata práticas que o Exército desmente existirem, como o ataque a locais de culto ou a “confirmação da morte” (disparo a curta distância contra a cabeça de alguém já atingido a tiro). As chefias estão a investigar o caso que, dizem, pode configurar “dano à honra do Exército”.


