Conselho de Direitos Humanos da ONU não prevê discutir situação no Tibete

26.03.2008 - 18:35 Por AFP
O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas não tem prevista qualquer reunião para discutir a situação no Tibete, apesar das críticas proferidas por vários países ocidentais à forma como as forças chinesas estão a reprimir os protestos.
Recentemente, o Conselho realizou sessões extraordinárias para discutir crises humanitárias em pequenos países como Israel ou a Birmânia, mas nada de semelhante está previsto para a situação no Tibete, palco no início deste mês de manifestações e motins contra o domínio chinês, seguidos de uma repressão militar de dimensão ainda incerta.
“Há dois pesos e duas medidas no Conselho”, lamentou Ngawang Choephel, activista da associação Tibetan UN Advocacy.
Ontem, durante a sétima reunião plenária do Conselho, a decorrer em Genebra, os representantes da Eslovénia, em nome da UE, dos EUA, Suíça, Austrália e Canadá fizeram declarações públicas expressando a sua preocupação com a situação no território.
Contudo, nenhum destes países apresentou uma proposta de resolução contra a China, propôs o envio de uma missão ao Tibete para apurar a situação no terreno ou a realização de uma reunião extraordinária sobre o tema, como propunham cerca de 60 organizações de defesa dos direitos humanos. Mesmo assim, o representante chinês interrompeu, por várias vezes, os discursos dos seus congéneres e das ONG presentes, para desmentir as acusações.
“Os grandes Estados [representados] no Conselho são intocáveis. A China era intocável na [anterior] Comissão dos Direitos Humanos e continua a sê-lo no Conselho", lamentou Julie de Rivero, representante da Human Rights Watch.
Por seu lado, Julie Gromellon, activista da Federação das Ligas de Direitos Humanos, lembra que a pressão exercida por Pequim levou mesmo o presidente do Conselho a “interromper as ONG” que centraram as suas intervenções na situação do Tibete.
Em declarações à AFP, um diplomata europeu confirmou as denúncias, revelando que antes da sessão de ontem “o embaixador chinês preveniu os europeus para evitarem fazer declarações” sobre os abusos no Tibete. O diplomata explicou que, além da pressão directa sobre os seus parceiros ocidentais, Pequim conta com a solidariedade de outras nações asiáticas e de países africanos, com quem tem relações comerciais privilegiadas.
Dos 47 países representados no Conselho, criado em Junho de 2006 para substituir a ineficaz Comissão, 13 são africanos e outros 13 asiáticos – uma situação que Pequim tem sabido usar para evitar críticas à situação dos direitos humanos no país. Da mesma forma, Pequim tem-se solidarizado com várias nações africanas, como é o caso do Sudão, seu principal parceiro económico na região, condenado pelo conflito étnico em Darfur.
O Conselho de Direitos Humanos da ONU encerra amanhã as quatro semanas de sessão plenária, estando prevista para amanhã a adopção de uma série de resoluções. Nenhuma menciona a situação no Tibete. “Apenas três países nos disseram que estariam prontos a apoiar a ideia de uma sessão extraordinária sobre o Tibete”, lamentou Julie Gromellon.

