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Estados e instituições vão assinar parceria de cinco anos para fazer do país "estável, democrático, combatente do terrorismo"

Conferência em Londres reúne 70 países para renovar apoio ao Afeganistão

31.01.2006 - 10:48 Por Sofia Lorena, PÚBLICO

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Hamid Karzai Hamid Karzai (Kirsty Wrigglesworth/AP)
A transição política lançada há quatro anos terminou no fim de 2005, mas o Parlamento que os afegãos elegeram em Outubro depende da ajuda internacional para quase tudo, incluindo salários ou contas de electricidade. É também por isso que, quatro anos depois da queda dos taliban e da conferência de Bona, se realiza, hoje e amanhã, a Conferência de Londres, um encontro que o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, diz servir antes de mais para "tranquilizar os afegãos".

Para além de Annan, servirão de anfitriões o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e o Presidente afegão, Hamid Karzai. Entre os participantes estará a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, que ontem, já na capital britânica, prometeu a Karzai que os Estados Unidos vão apoiar o Afeganistão até este ser "um Estado estável" e resistente face às ameaças terroristas.

Ao todo, são 70 os participantes, entre países e instituições diversas, os mesmos que financiam mais de 90 por cento do orçamento afegão.

A conferência será marcada pela assinatura, já hoje, de uma parceria entre Cabul e estes doadores, baseada no documento que o Governo afegão prepara desde há alguns meses. O Executivo chama-lhe pacto e intitulou-o Trabalhar para o Sucesso, incluindo nele ambiciosos objectivos para os próximos cinco anos.

Para lá das intenções de princípio, como a construção de um "Afeganistão estável e próspero" nos domínios da segurança, da governação e dos direitos humanos, o documento define como objectivos concretos o alargamento do Exército aos 70 mil soldados, a ligação de 40 por cento das cidades por estrada, ou levar electricidade a 65 por cento dos lares urbanos e 25 por cento dos rurais.

Esta "é uma formidável história de sucesso, mas admitimos que ainda há um longo caminho a fazer", afirmou Rice. "E a comunidade internacional, nomeadamente os EUA, serão um parceiro fiel" para fazer do Afeganistão um país "estável, democrático, um combatente do terrorismo", garantiu a Karzai. "Cometemos uma vez o erro de deixar o Afeganistão entregue a si mesmo. Não o repetiremos", declarou ainda Rice, em referência ao fim da ocupação soviética, em 1989, a que se seguiram golpes e conflitos internos que lançariam os taliban no poder e fariam do país um santuário para a Al-Qaeda.

"Esta conferência histórica chega num período particularmente difícil. As sementes de um Estado funcional quase nem germinaram. Tensões profundas permanecem e a ameaça de um regresso ao estatuto de Estado falhado persiste - com tudo o que isso implica para o terrorismo local e internacional. Ataques suicidas, antes não vistos no país, estão a aumentar, com 19 nos últimos 12 meses - 13 destes nos últimos dois meses", resumia, num artigo publicado domingo no Financial Times, Gareth Evans, presidente do International Crisis Group, organização especializada no acompanhamento de conflitos.

Estado dependente por 20 anos

Ontem, as forças de segurança encontraram e desactivaram duas bombas junto à estrada principal para o aeroporto de Cabul, enquanto numa cidade do Sul era encontrado um carro armadilhado. Na mesma região, perto de Kandahar, a polícia detivera na véspera nove pessoas suspeitas de planear ataques, incluindo dois paquistaneses que estariam a preparar-se para ser bombistas suicidas.

Um dos grandes temas da conferência será a luta antidroga: o Afeganistão produz 87 por cento do ópio mundial, origem da quase totalidade da heroína que é consumida nos países europeus. A produção de ópio, que alimenta a insegurança, representa o equivalente a 60 por cento do PIB legal do país, transforma-o num quase "narco-Estado".

Na conferência de Londres não serão feitos pedidos concretos para ajuda financeira, mas também é isso que está em causa e nos últimos dias já países como os EUA, a Rússia ou a Alemanha anunciaram que irão apresentar contributos na reunião.

Na agenda estão debates financeiros, onde o Governo solicitará mais poder para gerir fundos: muitos doadores recusam devido à fraca experiência administrativa e à corrupção, mas os números provam que a dispersão de fundos por organizações não-governamentais e projectos conduziu a enormes desperdícios e o próprio Banco Mundial já pediu aos países financiadores para não ignorarem Karzai.

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