"Espero que isto não seja apenas teatro político mas também uma maneira de realmente resolvermos este problema", declarou o Presidente Barack Obama nos primeiros minutos da cimeira sobre a reforma do funcionamento do sistema de saúde, que ontem juntou congressistas democratas e republicanos numa das residências da presidência em Washington.
As negociações relativas à reforma, prometida por Obama na campanha e transformada na principal prioridade da sua Administração, duram há um ano. Esta iniciativa foi encarada como o "derradeiro" esforço para ultrapassar o impasse no Congresso e encontrar uma solução de compromisso.
Mas antes da cimeira ninguém esperava que os problemas fossem resolvido nas seis horas de discussão, integralmente transmitidas na televisão. O Partido Republicano mantinha-se intransigente na oposição às propostas de lei dos democratas e da Casa Branca, e estes tinham um interesse limitado em acrescentar mais emendas aos seus projectos por sugestão dos conservadores, que afinal vão votar contra a reforma.
"Vamos começar por falar sobre aquilo em que concordamos, e depois avançar para aquilo em que não conseguimos entender-nos", sugeriu Obama no arranque. Mas sem querer dar ao Presidente a dianteira no debate, os republicanos partiram logo para o terreno da discórdia, acusando os adversários de quererem promover uma reforma que implica mais impostos, mais regulação, mais dívida pública e menos escolha individual.
Animados pelas sondagens que demonstram o descontentamento do eleitorado com a forma como se tem desenrolado a negociação, os republicanos esperam, com a sua oposição, poder capitalizar nas eleições intercalares para o Congresso de Novembro. Um inquérito do USA Today/Gallup revelou que 49 por cento dos eleitores se opõem à proposta de reforma aprovada no Senado, enquanto 43 por cento apoiam a sua entrada em vigor.
Contudo, as sondagens apontam também que, individualmente, os pontos específicos da reforma são extremamente populares - as dez principais provisões, como os novos regulamentos para as companhias de seguros ou os benefícios fiscais para as empresas que garantirem apólices aos seus funcionários, gozam de uma aceitação à volta de 80 por cento.
Por isso, os democratas concentraram-se em apontar os benefícios para as famílias, as empresas e o orçamento federal da sua legislação. Eles sabem que quanto mais o público está informado maior a sua aceitação.
Porque o que ontem estava em jogo, do ponto de vista dos liberais, era a unidade da desalinhada bancada democrata: no início, as facções progressistas e moderadas não se entenderam quanto à substância, mas nesta fase as resistências têm a ver com a votação definitiva. A eleição do republicano Scott Brown acabou com a maioria de 60 votos dos democratas no Senado e por isso terá de ser a Câmara de Representantes a liderar o processo.
O momento de pré-campanha é bastante desfavorável para os democratas, mas os custos políticos da inacção serão elevados: o falhanço em aprovar uma lei que negociaram durante um ano será punido nas urnas, por quem goste da proposta final ou não.
A "opção nuclear"
Obama procurou dar uma ajuda, encurralando os republicanos para uma posição de obstrucionistas. Defendeu a reforma como "absolutamente essencial" e urgente e desafiou os conservadores a explicarem as suas contrapropostas - forçando-os a reconhecer que a sua discordância é ideológica e não necessariamente baseada na bondade das propostas.
De acordo com os analistas, a cimeira destinava-se, mais do que tudo, a provar à opinião pública que, na ausência de um compromisso, só resta uma alternativa para salvar a reforma que todos reclamam: os democratas assumirem a sua maioria e avançar.
Há uma chamada "opção nuclear" disponível: o procedimento parlamentar da "reconciliação", que permite aprovar legislação com repercussões no orçamento através de uma maioria simples de 51 votos no Senado.
O republicano Lamar Alexander deu conta do choque da sua bancada por os democratas encararem o recurso a este procedimento, que considerou ilegítimo e "pouco democrático".



