Comentário: O homicida à procura de um lugar na História

27.07.2011 - 12:36 Por Jorge Almeida Fernandes
Nada é tão inquietante como o mal. O homicida norueguês - que passo a designar por B - começou a jornada de sexta-feira com a bomba em Oslo. O horror, que vai banalizar a bomba, começa a seguir. Em Utoya, B transforma-se no "assassino em massa". Abate a tiro, com balas dum-dum, dezenas de jovens - "caçados como coelhos", disse um sobrevivente. A seguir, dispara sobre os que nadam para escapar.
São jovens sociais-democratas, parte da futura elite norueguesa. B não alvejou "alienígenas" ou muçulmanos. Matou noruegueses - virtuais responsáveis pela futura "destruição da Europa" -, o que envolve uma transgressão maior.
Disparou - disse alguém - dezenas de vezes sobre o símbolo do que designou por "marxismo cultural", a principal "ideologia genocida" da Europa "cristã".
B não fugiu. Na segunda-feira, o seu ar triunfante no carro da polícia era tão eloquente quanto o manifesto que deixou na Internet. O plano implicava a detenção e o julgamento - o apogeu da mediatização.
"O que este morticínio de seres humanos mostra é a infinita banalidade e idiotia do mal e da violência, tantas vezes mostrados envoltos em sedução. (...) É uma vergonha, embora inevitável, registar na memória o nome do assassino norueguês e não os das suas vítimas", comentou no Corriere della Serao escritor italiano Claudio Magris.
Em Julho de 356 a. C. um anódino Eróstrato incendiou o Templo de Artemisa em Éfeso, de que se dizia ser uma das "sete maravilhas do mundo". Assumiu que o fizera como desesperado meio de alcançar a glória. O sacrilégio foi castigado com a morte. Como póstuma punição, os magistrados proibiram os efésios de jamais citarem o seu nome, que foi também apagado de todos os documentos. Mas um historiador de outra cidade nomeou-o, outros o repetiram e Eróstrato entrou na História. Ninguém conhece o nome do arquitecto que desenhou o templo de Éfeso. Tal como Eróstrato, B está a ganhar.
O homicida violou um tabu da cultura nórdica, que condena a autoglorificação. Vangloriou-se B no manifesto: "Serei olhado como o maior monstro desde a II Guerra Mundial". Perante a polícia, reivindicou os actos e rejeitou a responsabilidade criminal. Um "herói" que acaba de entrar na História não reconhece a culpa.
"Os assassinos em massa agem geralmente sozinhos", explicou à Reuters o sueco Magnus Ranstorp, especialista em terrorismo. "[B] é extremamente narcisista e preocupa-se consigo e com o seu lugar na História."
Terrorismo "negro"?
A imprensa internacional foi célere nas interpretações. À precoce pista islamista - o "inimigo externo" - que durou horas, seguiu-se a suspeita duma conspiração da extrema-direita - o "inimigo interno". Declarou um especialista: "A islamofobia é uma ideologia de massas que impregna a sociedade". A islamofobia teria virtualmente guiado a mão de B.
No domingo, o jornalista italiano Pierluigi Battista criticou a pressa das interpretações: "Antes de apurar os factos, surge a febre da identificação do "Inimigo", a procura de explicações que dêem segurança, de simplificações que ponham alguma ordem no que parecia privado de sentido - uma lógica para a orgia de sangue e de morte que sacudiu em poucas horas uma nação tranquila como a Noruega".
É um mecanismo de autodefesa perante o sentimento de vulnerabilidade. "O medo mais verdadeiro é o do inexplicável." Se o autor do massacre tiver tido cúmplices será a natural corroboração da hipótese de "um criminoso desígnio de massacre". Se tiver agido sozinho, "perdemos uma boa ocasião de estar calados".
O "pequeno Mein Kampf" que B colocou na Internet começou a ser passado a pente fino, como se trouxesse, enfim, uma explicação do crime. Para lá dos delírios, suscita um problema maior: está, por definição, semeado de pistas falsas.
Após a detenção, B continua aparentemente a semeá-las, apontando a existência de outras "células", na Noruega ou no estrangeiro. Comentou uma investigadora da polícia norueguesa: "Talvez queira sugerir que está envolvido em algo maior do que ele".
Cinco dias depois de Utoya, sabemos pouco. Para lá do crime, B colocou em xeque os novos partidos xenófobos. A blogosfera de extrema-direita está debaixo de fogo e na defensiva.


