Comentário: Mineiros simbolizam o novo "orgulho nacional" chileno

13.10.2010 - 09:47 Por Jorge Almeida Fernandes
No ano do bicentenário do Chile, os 33 soterrados da mina San José tornaram-se no catalisador da coesão nacional. O mérito decorre da sua conduta, do inesgotável espírito de sobrevivência, sem pânico nem lamúria - são mineiros, trabalham debaixo da terra, a morte é-lhes vizinha.
Todo o Chile acompanha, ainda com angústia, a operação de resgate, que não é vivida como acção humanitária mas como "resgate nacional" - o "renascer" dos 33 e da nação. Os mineiros - escreveu um analista - deram um novo significado à bandeira chilena. Queixava-se há dias um deles de que lhe doía a mão de fazer autógrafos nas bandeiras que chegam de todo o país. No dia do bicentenário, 18 de Setembro, cantaram o hino nacional para todo o Chile.
Em segundo lugar, os chilenos estão orgulhosos de si mesmos, pela reacção activa perante o desastre de 5 de Agosto. Ao fim de 17 dias de buscas, os soterrados enviaram a primeira mensagem: "Estamos bem no refúgio, os 33." O Presidente Sebastián Piñera leu o pedaço de papel na televisão e gritou: "Viva Chile, mierda!"
O ano do bicentenário começou com um sismo político: pela primeira vez desde 1958 um político de direita foi democraticamente eleito Presidente. Empresário e multimilionário, Piñera derrotou o candidato do centro-esquerda, Eduardo Frei, patrocinado pela Presidente Michelle Bachelet, que concluiu o mandato com a inaudita popularidade de 84 por cento.
Veio a seguir o terramoto de 27 de Fevereiro, um dos cinco mais fortes de sempre (8,8 na escala de Richter), e um tsunami que fizeram 800 mortos e tiveram efeito devastador na economia. Piñera tomou posse no momento de uma réplica de 7,2 graus.
A 4 de Agosto, uma sondagem mostrava a queda da popularidade de Piñera e do Governo, que descia para os 46 por cento. Mas, a 1 de Setembro, ela voltava ao patamar inicial dos 56. E depois cresceu. Chamam-lhe o "efeito San José". Piñera mobilizou todos os recursos, foi para o terreno, ilustrou um estilo de governar: "Decisão, convicção, rapidez." O politólogo Patricio Navia chamou-lhe o "34.º mineiro".
É um fenómeno acima da divisão esquerda/direita. A popularidade dos governos vai e vem. Neste caso, o Chile orgulha-se de si e da eficácia do governo. E tem outras razões de optimismo. No segundo trimestre do ano, apesar da devastação do terramoto, a economia cresceu a uma taxa de 6,5 por cento.
Defende o politólogo chileno Cristian Leyton Salas que está a emergir um nacionalismo "positivo", que não se constrói contra um "inimigo externo", à moda de Hugo Chávez, mas em torno da modernização do país e da sua projecção internacional, um "nacionalismo "benigno" que esconde algum messianismo". Um dos desígnios é alcançar, dentro de uma década, um "nível europeu", outro é cicatrizar as feridas da ditadura de Pinochet. Há ainda os desafios da pobreza e da "questão indígena", reactivada pelas reivindicações dos índios mapuche.
O novo "orgulho nacional" mede-se por um índice: 80 por cento dos chilenos - contra apenas 44 por cento dos argentinos - declaram-se muito satisfeitos com o balanço dos dois séculos de independência.
Os mineiros são o actor involuntário do bicentenário. O resgate será, perante o olhar de todo o mundo, o lugar simbólico da celebração.


