Os “surfistas”, gente afável e correcta, ocupam todos o mesmo espaço: as ondas. Entre si têm um código assumido, que evita os atropelos e previne os perigos. A política espanhola é bem diferente. O movimento dos indignados acampados nas “Puerta del Sol” de Madrid suscitou as mais céleres adesões. Foi assim que os comunistas da Esquerda Unida se uniram a um protesto cuja gestação lhes passou desapercebida, apesar de comungarem ADN com alguns dos promotores da iniciativa. Também os socialistas, os principais visados pelas demolidoras críticas dos acampados, tentam retirar dividendos.
A Esquerda Unida estima que a sua votação nas eleições de hoje vai subir cerca de quatro por cento. Que tirarão lógico benefício de uma mobilização inovadora. Num protesto sem líderes assentados, com rotação propositada de porta-vozes para evitar protagonismos, a coligação comunista encontra mimetismo com a prática do centralismo democrático. Com tom paternalista, adopta as massas. Como o cuco, põe os seus ovos em ninho alheio.
Menos aventureira foi a reacção dos socialistas. Mas igualmente oportunista. Com surpresa e mal-estar receberam as mobilizações. Argumentaram que as críticas à “praxis” política eram injustas, esquecendo que juntaram os seus votos aos dos parlamentares do PP e inviabilizaram a reforma da lei eleitoral. Olvidando que, como os “populares” e os comunistas, levam nas suas listas candidatos acusados de corrupção pela Justiça. Desorientados, tentaram pontes que foram recusadas. Apontados como parte do problema, lambem as feridas e consideram-se incompreendidos. Triste espectáculo.
Surpreendente foi, também, a resposta dos conservadores. Encararam o movimento de protesto com os mesmos slogans da campanha. Não consideraram as acampadas dignas de reflexão. Viram-nos como um escolho para a sua vitória. Uma última barreira para o triunfo. Não propuseram diálogo. São adeptos da mão dura. Das soluções policiais. Um péssimo cartão de visita para quem vai governar a Espanha a partir de Março de 2012.
Boa parte dos analistas são meras declinações dos partidos. Comungam dos mesmos argumentos. Um olhar independente, pousado e reflexivo a uma realidade complexa é ousadia que não tentam. Sabem, como todos, que segundo o oficial Centro de Informações Sociológicas, desde há ano e meio que, após a crise económica e o desemprego, a classe política é o terceiro problema para a cidadania. Mas estão surpreendidos.
Os economistas reagiram com medo. Eles que, com desprezo, lamentaram que a juventude espanhola não reagisse às crescentes dificuldades, a um desemprego que afecta a 45 por cento dos que têm menos de 25 anos. Agora, com o protesto a andar, entre um programa reformista possível e as inevitáveis utopias, preferem sublinhar a estridência das últimas.
O movimento é heterogéneo? Ainda bem. É imberbe na organização? Tanto melhor. Propõe metas infantis? Como todos e sempre. Contraditório nas suas componentes? Antes isso que a unanimidade. Será flor de um dia? Possivelmente. Tem estes e todas as imperfeições de quem desabafa. Mas já obrigou uns quantos a gritarem “esta onda é minha!”.



