De que é que Barroso precisava? De encontrar no Parlamento Europeu uma maioria de apoio suficientemente ampla para “limpar” o processo difícil, por vezes penoso, que o levou até um segundo mandato. Obteve-a. Não foi uma maioria esmagadora nem reflecte um apoio político galvanizador e indiscutível ao homem que deve presidir à Comissão num período particularmente complexo e exigente da integração europeia – aquele que definirá o lugar da Europa num mundo completamente diferente daquele em que existiu até agora. Foi suficiente para lhe dar a legitimidade política necessária à luz do próprio Tratado de Lisboa.
Se Barroso vai utilizar esta nova legitimidade para fazer esquecer as três críticas principais que o perseguiram durante este longo processo “eleitoral”, só o tempo o dirá.
Foi acusado de falta de ambição. Poderá demonstrar que a tem, se conseguir liderar com visão e determinação as três grandes prioridades que ele próprio definiu: o processo de saída da crise e a agenda de Lisboa para o pós-2010; o dossier energia/clima; e a defesa do mercado interno contra as investidas nacionais, sobretudo de alguns grandes países.
Foi acusado de se vergar demasiado à vontade e ao interesse dos “grandes”. Acusaram-no de “passar mais tempo ao telefone” com Berlim, Paris e Londres do que a defender com convicção as suas ideias políticas. A composição da próxima Comissão será o seu primeiro teste de independência e de imparcialidade ao serviço do interesse europeu que deve representar. Sabe-se as pastas que Berlim ou Paris desejam, e sabe-se o que isso significa.
Finalmente, foi acusado de ser demasiado liberal, quando era esse o credo vigente no mundo. Ver-se-á como consegue adaptar as políticas europeias ao novo paradigma que pode emergir no pós-crise. Foi-lhe fácil fazer concessões à esquerda em matéria de políticas sociais. Será mais difícil encontrar um novo equilíbrio que defina em termos novos aquilo que deve ser o modelo económico-social próprio da Europa.
Mas o que a sua eleição também revela é um novo paradigma da integração europeia em que deixou de ser possível aos governos tomar as decisões fundamentais no sossego dos conselhos europeus. O Parlamento tem cada vez mais poderes. A Europa “politizou-se”. A escolha do presidente da Comissão também. Barroso teve de pagar o preço.


