Clima: Se falarmos já em plano B, acabamos no F, de "falhanço"

11.11.2009 - 10:32 Por Lurdes Ferreira, com Ricardo Garcia
O planeta tem apenas 120 meses para travar a mudança do clima e evitar que a sua temperatura suba acima de dois graus centígrados. São exactamente os 10 anos que vão de 2010 a 2020. É um dos argumentos de maior dramatismo de Jorge Moreira da Silva.
Este ex-eurodeputado liderou a delegação do Parlamento Europeu nas negociações de Quioto, redigiu a versão final da directiva do comércio de emissões e hoje coordena projectos inovadores ligados às alterações climáticas no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
No guião de Moreira da Silva para cumprir este número, que impressiona não pelo tamanho mas pela proximidade, o primeiro apelo vai para os líderes. "Este é o tempo dos líderes. Importa saber se assumem essa capacidade ou se preferem uma adesão com algum cinismo." E é com o mesmo tom dramático, reforçado pelo pessimismo dos últimos dias na ronda de Barcelona, que afirma: "Se começarmos já a falar em plano B, a prazo acabamos no plano F, de "falhanço"."
Três pontos fundamentais
Moreira da Silva, que também lidera a equipa do PNUD nas negociações sobre o pós-2012, em Copenhaga, identifica os três "pontos fundamentais" a que a cimeira de Dezembro tem de responder: o nível de responsabilidade que a comunidade internacional assume perante as próximas gerações, limitando o aumento de temperatura do planeta a dois graus centígrados; o nível de ambição e solidariedade na repartição de esforços entre os países industrializados e o que será exigido aos países mais pobres; e o custo-eficiência que a comunidade internacional quer alcançar. "Não é só cumprir as metas de redução, mas a que preço queremos cumpri-las, o que vai determinar os novos instrumentos do mercado de carbono capazes de induzir a redução de emissões ao preço mais baixo."
E em cima da mesa, diz, estão quatro dossiers, com a União Europeia a defender os valores mais ambiciosos, os EUA a pedirem tempo e a China e a Índia a não poderem ficar de fora. Os líderes têm de decidir sobre a redução do nível de emissões, com o painel intergovernamental das alterações climáticas (IPCC) a pedir aos países mais ricos uma redução de 25 a 40 por cento das emissões até 2020, em relação a 1990, e aos mais pobres de 15 a 30 por cento, em relação à actualidade. Têm de decidir também sobre o financiamento e respectivo modelo de governação de ajudas para a adaptação à mudança climática. O montante que tem sido avançado é de 100 mil milhões de euros em 10 anos. Vão também responder se incluem, desta vez, a desflorestação, que já representa 20 por cento das emissões mundiais.
Transportes fora da agenda
O sector dos transportes não está na agenda, mas deveria estar, para Moreira da Silva, por continuar fora da alçada dos tectos de emissões, que incidem apenas sobre a produção e consumo de energia. "No sector dos transportes estamos a dar de barato que se vai aumentar em 100 por cento as emissões nos próximos 10 anos. É um sector que dá muito trabalho, é muito impopular, gera maus resultados eleitorais, mas a verdade é que não é possível mudarmos de vida sem atacarmos os transportes."
Com uma opinião pública favorável como nunca, sublinha, "é necessário esticar a posição negocial até ao limite". Em Copenhaga, Moreira da Silva participará nas negociações em apoio aos países em vias de desenvolvimento e não tem dúvidas de que "o que está em causa é salvar o planeta". Garantir o bem-estar das próximas gerações "é de tal forma uma obrigação da geração actual" que se justificaria o combate à mudança climática, mesmo que fosse prejudicial em termos económicos.
"Quando ainda por cima se sabe que o custo de não fazer nada é muito superior ao custo de agirmos e se sabe que essa acção vai gerar oportunidades económicas que compensam largamente os custos, só por estupidez adiaremos essa acção."
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