Contingentes dos capacetes azuis da ONU estavam ontem a caminho das zonas tomadas pelos rebeldes de Laurent Nkunda, no Leste da República Democrática do Congo (RDC). Iam com ordens para disparar. O Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP) ora anunciava o fim dos combates e defendia o diálogo, ora abria novas frentes e dizia não esperar nada da cimeira de Nairobi, que hoje começa.
Não se sabia a que distância os homens da Missão das Nações Unidas na RDC (MONUC) estavam dos objectivos. A ordem de avançar foi anunciada pelo porta-voz da MONUC, tenente-coronel Jean-Paul Dietrich, que falou em blindados. O número de soldados era desconhecido.
A missão dos capacetes azuis era "travar a ofensiva rebelde", disse o militar, afirmando que tinham ordem para disparar se fosse preciso; no entanto, os combates tinham aparentemente cessado.
O porta-voz do CNDP, Bertrand Bisimwa, declarou que esta não tem ambições territoriais. Que as progressões dos últimos dias foram menos para conquistar do que para forçar o Governo do Presidente Joseph Kabila a negociar uma saída para o conflito, que ressuscitou de repente na semana passada.
"A nossa intenção não é tomar territórios mas dizer ao Governo que é preciso negociar", declarou um assessor de Nkunda citado pela agência francesa.
Mas o comportamento do CNDP tem sido contraditório. No dia 29 de Outubro, declarou um cessar-fogo. E a seguir começou a tomar cidades, uma aqui, outra além do vasto território do Kivu Norte. E tudo pontos estratégicos importantes.
Ontem por exemplo assaltou Nyanzale, a 80 quilómetros a noroeste de Goma, a capital da região, onde estava o quartel-general de uma brigada do exército. Terá também ocupado Kikuko, nove quilómetros mais a norte. Isto depois de ter tomado Kikanja, uma pequena cidade do Leste.
As últimas conquistas mostram que a ideia dos rebeldes, tutsis banyamulenges, é abrir caminho para Kanyabayonga, a 120 quilómetros, e daí para o domínio de todo o Norte da província, de acordo com a AFP.
Em Nairobi, no Quénia, começa hoje uma cimeira internacional sobre a crise. O encontro, em que estará o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, será uma ocasião para o Presidente congolês, Joseph Kabila, se reunir com o do Ruanda, Paul Kagamé, que acusa de inspirar a revolta.
Mas também aqui o CNDP de Nkunda diz ora uma coisa, ora outra. "Não esperamos nada desta reunião, já houve muitas conferências do mesmo género", declarou, numa entrevista à AFP, Bisimwa.
Os motivos próximos do regresso à guerra continuam os mesmos dos primeiros dias: ripostar a ataques do exército governamental. Os de fundo são rivalidades étnicas, com Kinshasa a acusar Kigali, cujas autoridades são tutsis desde 1994, de apoiar Nkunda. Os não ditos são de natureza económica e têm a ver com as riquezas da província. E há ainda complicadas alianças regionais.
Os combates causaram uma crise humanitária catastrófica. Os dois lados atacaram até campos de refugiados. Não se conhece a extensão da tragédia. A Reuters referiu ontem uma vala comum, em Kiwanja, com 12 corpos. A MONUC falava de execuções sumárias na cidade. Um jornalista belga, Thomas Scheen, desapareceu. Pelo menos 250 mil pessoas estavam na estrada e o contingente aumenta. A ajuda internacional chega, mas com dificuldade.
À espera de uma solução política, as populações estavam ontem nas mãos da MONUC, muito criticada -os habitantes de Goma chamam-lhe "missão de manutenção de guerra". Mas as forças da ONU somam só 17 mil homens. Ban Ki-moon tenta que sejam aumentadas para 20 mil. A Índia, que participa na força com 8 mil homens, prometeu mais 1200.


