Cidades campeãs do “sim” e do “não” votam de novo Tratado de Lisboa 
02.10.2009 - 18:04 Por Sofia Lorena, Dublin
Com a dura campanha finalmente terminada, visível já só nos muitos cartazes que ainda não deixaram as ruas, 3,1 milhões de irlandeses são hoje chamados a votar no Tratado de Lisboa, o mesmo que rejeitaram o ano passado. À espera do resultado está o primeiro-ministro, Brian Cowen, que ontem descreveu o voto como “um dos mais importantes da história recente da Irlanda”, e o resto das capitais na União Europeia.
Pelas 10h00 tinham votado pouco mais de 5,5 por cento dos eleitores inscritos na St. Rose’s National School de Tallaght, um município do Sudoeste de Dublin de casa escuras e onde se chega por uma via rápida com armazéns e fábricas. Como habitualmente, numa zona de trabalhadores de classe média e baixa, a maioria das pessoas só vota ao fim da tarde ou à noite, diz Anne, a supervisora que acabou de contar os eleitores que já passaram pela escola primária. “Mesmo assim, está sempre gente a entrar, mais do que o costume durante a manhã.”
John e Anne Kelly já estão reformados e votaram a meio da manhã. “Todos os partidos dizem para votarmos sim”, justifica John. Eles assim fizeram. Com excepção dos republicanos do Sinn Fein, todos os partidos com representação parlamentar fizeram campanha pelo “sim”, incluindo o Labour, que venceu as últimas eleições locais em Tallaght. Alice, de 48 anos, é muito mais nova do que os Kelly, mas também já não trabalha. “Votei ‘sim’. Mas não sei dizer muito sobre isto. Senti que era melhor para nós, para não ficarmos sozinhos.”
Alice tinha votado “não” em 2008. O campo do “sim” espera ter feito mudar de ideias muitos como ela. O “não” venceu com 53,4 por cento dos votos, mas em Tallaght e Dublin Sudoeste chegou aos 65 por cento, o valor mais alto de todo o país.
Entre os eleitores registados na St. Rose’s National School, 5246 no total, também há os que recusam mudar de voto. John, um taxista muito ruivo de 40 anos, explica que “o Governo não informou as pessoas em condições”. “Eu li tudo o que encontrei, segui o máximo que pude a campanha. Mas não sei o suficiente. A campanha do ‘não’ pôs muitas dúvidas nas pessoas e o ‘sim’ não nos tranquilizou.”
Michael, comerciante reformado, também não mudou de ideias, entre dúvidas e algumas certezas. “Não vivemos numa democracia”, diz e repete, querendo com isso lembrar que os irlandeses já votaram uma vez. “O Governo está num desespero. São como cordeiros à beira do precipício e seguem em frente”, afirma, recordando as “ondas de choque” provocadas pela primeira rejeição. “Eles não sabiam o que fazer, foi muito dramático.”
Eleitores "assustados"
Michael quer ver o primeiro-ministro pelas costas, diz que ele arruinou a Irlanda para “a próxima geração” e gostava que o empresário Declan Ganley, fundador do Libertas, estivesse num dos grandes partidos e pudesse ser eleito, “ele é brilhante”. Mas nem Ganley, que defende o “não”, conseguiu esclarecê-lo. “Eles fizeram tanta confusão que eu ainda não sei se vamos ter um comissário, num caso ou no outro. Não consigo perceber.” Apesar das dúvidas e de não ter mudado de voto, acredita que o “sim” vai ganhar. “Infelizmente, desta vez muitas pessoas vão votar ‘sim’ por estarem assustadas”, diz, acusando o Governo de ter mentido ao sugerir que a Irlanda teria de sair da UE ou que a economia ficará ainda pior se o “não” vencer.
Em Tallaght o desemprego não pára de crescer. Nos últimos 12 meses, o número de desempregados, pessoas com trabalho ocasional ou part-time até três dias por semana aumentou 90 por cento.
Dun Laoghaire é outro município dos subúrbios, 11 quilómetros a sul da capital. Mas é muito diferente. Cresceu em redor de um porto que é uma das principais entradas para os barcos vindos do Reino Unido e tem um centro antigo bonito e movimentado, prédios mais altos do que Dublin, mas também muitas casas baixas e grandes, com garagens e jardins espaçosos. Junto à costa, as casas ganham cores claras pouco comuns e a luz é quase brilhante, apesar do dia cinzento.
Na escola primária Montessori de Dun Laoghaire, a que todos se referem por convento dominicano, Fanchea, a supervisora, ainda espera pela enchente que “com sorte” vai aparecer depois das 17h00. Mesmo assim, até ao meio-dia votaram ali 17 por cento dos inscritos, mais do que no resto do país.
Não deixar de votar
Barbara Smith votou “não” em 2008 e não sabia que o “sim” venceu aqui com mais votos do que em qualquer outro círculo eleitoral do país, 63,5 por cento. “Não tinha informação suficiente para votar sim. Ninguém se preocupou em explicar. Sem saber não ia votar ‘sim’ e também não deixo de votar, quero sempre votar”, explica. Sublinhando que “é muito difícil” perceber o que está em causa no Tratado Europeu, diz que agora houve mais informação. Decidiu-se pelo “sim” porque “não podemos estar fora e dentro, só temos um caminho”.
Para Joseph votar “sim” foi uma decisão simples. Em 2008 e agora. “É o melhor”, diz o motorista reformado. “As pessoas votaram ‘não’ por estarem confusas. Caiu-nos em cima muito de repente este tratado”, sugere. Anne, que trabalha numa loja ali perto, no centro, também votou “sim” das duas vezes. “Por ele”, diz, apontando para o filho de cinco anos, um dos seus três. “Não sei muito sobre o tratado. O que li era impossível de perceber. Eu não percebo muito de política, mas tentei informar-me com um colega que se interessa mais e ele também não me soube explicar.” Mas acredita que se o Tratado de Lisboa passar os filhos “vão ter mais futuro, mais oportunidades”.
Na Irlanda vota-se sempre num dia de semana e, por isso, as urnas funcionam durante 15 horas. Abriram às 7h00 e só vão encerrar até às 22h00. Os resultados começam a ser contados amanhã às 9h00.

