China e EUA posicionam-se como pilares da estabilidade na Coreia do Norte

21.12.2011 - 15:24 Por Clara Barata
Pequim gostaria que o país vizinho se abrisse economicamente, num processo semelhante ao seu; os Estados Unidos evitam um discurso que hostilize o fechado Estado comunista.
Garantir uma transição de poder pacífica na Coreia do Norte após a morte de Kim Jong-il é a preocupação tanto da China como dos Estados Unidos. Enquanto o herdeiro escolhido para assumir o poder, Kim Jong-un, foi velar o cadáver do pai, exposto sob uma vitrina no Palácio de Kumsusan, em Pyongyang, a chefe da diplomacia americana fez uma declaração com frases tão cuidadosamente escolhidas que algumas partes "poderiam ter sido escritas pela China", disse um especialista ao Guardian. Em Pequim, o Presidente chinês, Hu Jintao, foi à embaixada da Coreia do Norte apresentar as suas condolências pessoalmente.
Os chineses têm esperança de iniciar um processo de abertura económica na Coreia do Norte como o seu. A relação especial entre os dois países, que data da Guerra da Coreia (1950-53), torna a China o principal (e quase o único) aliado de Pyongyang, e o seu maior fornecedor de ajuda alimentar, parceiro comercial e vendedor de armas, salienta o blogue Global Spin da revista Time. Mas as fronteiras entre os dois países não são porosas e Pequim quer mantê-las assim. Para isso, gostaria que a Coreia do Norte adoptasse reformas como as que tornaram a China na segunda maior economia mundial.
"A China deseja que a Coreia do Norte se abra e está a fazer esforços para isso", disse ao Le Monde Shi Yongming, do Instituto Chinês de Estudos Internacionais. Daí a mensagem de estabilidade de Pequim, quando ainda não é claro o equilíbrio de forças que se desenha após a morte de Kim Jong-il.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês tornou claro, aliás, que está disposto a trabalhar com os EUA e a Coreia do Sul para manter a estabilidade em Pyongyang, um país com armas nucleares.
A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, apelou também a uma "transição pacífica e estável", fazendo desejos de que o secretário da Comissão Nacional de Defesa (Kim Jong-un) queira trabalhar com a comunidade internacional. "Temos esperança de que a nova liderança guie a nação pelo caminho da paz honrando os compromissos da Coreia do Norte, melhorando as relações com os vizinhos e respeite os direitos do povo."
Foi com este diplomático discurso que John Delury, da Universidade Yonsei, na Coreia do Sul, comentou que algumas frases poderiam ter sido escritas pela China. "Há mensagens directas para quem estiver a puxar os cordelinhos em Pyongyang", comentou ao Guardian. "Refere-se a Kim Jong-un pelo seu título oficial, fala de luto nacional... são palavras escolhidas para não serem ameaçadoras."
Mas pensar em mudanças na Coreia do Norte - e detectar mudanças no interior do círculo de poder do país - é extremamente difícil, como se viu pela incapacidade dos serviços de informação ocidentais, e mesmo da Coreia do Sul, em perceber durante 51 horas que Kim Jong-il tinha morrido.
"Temos planos claros sobre o que fazer se a Coreia do Norte atacar, mas não se o regime ruir", disse ao New York Times Michael J. Green, um ex-conselheiro de George W. Bush para a Ásia. "Sempre que estudamos estes cenários, um dos primeiros objectivos é tentar descobrir o que é que se está a passar no país."
"Esta sociedade floresce na opacidade", comentou ao mesmo jornal Christopher Hill, ex-enviado dos EUA para a Coreia do Norte, que dirigiu as negociações sobre o programa nuclear. "É muito complexa. Para compreender a sua estrutura de liderança, é preciso estudar a cultura coreana e compreender os princípios de Confúcio."


