Bush discursa para recuperar apoio à sua política no Iraque

28.06.2005 - 09:04 Por Jorge Almeida Fernandes, PÚBLICO
Perante uma opinião pública que começa a exigir a retirada militar do Iraque, o Presidente George W. Bush discursará hoje em Fort Bragg para convencer os americanos de que a sua estratégia de combinar a acção militar com o processo político iraquiano acabará por resultar.
A situação é cada vez mais difícil, mas uma retirada seria catastrófica, para o Iraque e para os interesses dos EUA no Médio Oriente e para o seu estatuto internacional.
Os dados são cruéis. O apoio à "retirada imediata das tropas do Iraque" subiu de 36 por cento em Outubro para 42 em Fevereiro e 46 por cento hoje, diz o Pew Research Center. Uma sondagem da Gallup indica que o número dos que pensam que os EUA deviam começar uma retirada aproxima-se dos 60 por cento.
Bush tem invocado o argumento de que combater os terroristas no Iraque evita que a América os combata no seu próprio solo. Este argumento, a que os americanos são sensíveis, começa a esgotar-se. Para isto contribui o número de militares mortos - 1738 até ontem - e sobretudo a percepção de que a situação não melhora.
Outro inquérito, Washington Post/ABC, mostra que só 22 por cento dos inquiridos crêem que a rebelião está mais fraca, enquanto 24 dizem que está mais forte e 53 por cento que está na mesma. E 73 por cento pensam que o número de mortos já é "intolerável".
Diz ao Christian Science Monitor o politólogo John Allen Williams: "Não é de estranhar. Se os militares fazem as coisas depressa, o público apoia." Nesta caso, "falta capacidade aos militares e ao público paciência".
Uma expressão desta sensibilidade é a dificuldade de recrutar voluntários para render as tropas destacadas no Iraque e a preocupação de vários governadores em relação ao excessivo recurso à Guarda Nacional. Cresce ainda a preocupação entre congressistas republicanos, a pensar já nas próximas eleições.
Contradições
As declarações dos dirigentes confundem o público. O vice-Presidente Dick Cheney declarou há dias que a insurreição está "nos últimos espasmos". O secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, advertiu ontem que "as insurreições tendem a durar cinco, seis, oito, dez ou 12 anos" e que a violência subirá até às eleições de Dezembro. A guerrilha só será vencida pelos iraquianos e não por forças estrangeiras: "Estamos a criar um quadro em que o povo iraquiano e as forças de segurança iraquianas possam vencer a insurreição."
Por sua vez, o general John Casey, comandante da Força Multinacional no Iraque, afirmou que a guerrilha propagandeia muito mais força do que realmente tem mas reconheceu que há "entre 450 e 500 ataques por semana". Concluiu: "Em derradeira análise", a situação será resolvida "por negociações e inclusão [dos sunitas] no processo político". "Não será resolvida no campo de batalha." O mesmo disse o general John Abizaid, supremo responsável militar no Médio Oriente.
Na sexta-feira, Bush garantiu ao primeiro-ministro iraquiano, o xiita Ibrahim Jaafari, que não há "calendário de retirada", pois significaria dizer ao inimigo: "Eis o calendário, aguentem e esperem a nossa retirada." Ontem, Jaafari pediu dois anos para restabelecer a segurança no país.
As forças iraquianas não estão preparadas. Uma retirada precoce criaria um risco real de guerra civil, diz à Reuters o analista Mustafa Alani, do Dubai. E, do ponto de vista geopolítico, abalaria "o prestígio e a credibilidade" dos EUA na região "por 50 anos".
A colunista Linda Feldmann, do Christian Science Monitor, pensa que a identificação entre Iraque e terrorismo continuará a resultar. "O 11 de Setembro mudou o modo como víamos o mundo." É falso o paralelo com o Vietname. "O Vietname nunca atacou os EUA e o 11 de Setembro mostrou aos americanos o que acontece quando não somos agressivos na perseguição a este inimigo. Isto dá ao Presidente mais margem de manobra."
Depois dum domingo com 40 mortos, ontem foi menos mau: os atentados vitimaram nove iraquianos e dois pilotos americanos morreram na queda dum helicóptero.

