Dos claustros do seminário da Nossa Senhora Redentora, nos arredores de Buenos Aires, sai apenas silêncio. É lá que o bispo Richard Williamson vive desde há cinco anos. O silêncio não será sequer quebrado para responder a um pedido do Papa Bento XVI. Williamson, que pôs em causa o Holocausto, não está disposto a retractar-se. Só o fará se as análises que futuramente fizer provarem o contrário; mas não será para já, avisou à revista "Der Spiegel", que publicará a entrevista na segunda-feira.
“Eu estava convencido de que os meus comentários estavam correctos, com base em investigações que fiz nos anos [19]80”, declarou. “Preciso de reexaminar tudo outra vez e olhar para as provas. Se eu encontrar provas então rectificarei... mas isso levará tempo”.
No dia 22 de Janeiro, o bispo integrista – que se tornou numa figura de culto para seminaristas de extrema-direita – afirmou a uma televisão sueca que “não acreditava que tivessem existido câmaras de gás... Acho que entre 200 mil e 300 mil judeus morreram nos campos de concentração [a maioria dos historiadores aponta para 6 milhões] mas nem um só em câmaras de gás”.
As afirmações tornaram-se ainda mais polémicas porque dois dias depois era publicada a decisão do Papa Bento XVI de anular a excomunhão de Williamson e outros três bispos da Fraternidade Pio X (FSSPX).
Os católicos integristas do FSSPX romperam com o Vaticano em 1988, depois da ordenação de quatro bispos pelo seu fundador, Marcel Lefebvre, sem autorização do Papa. O grupo foi criado como reacção às orientações do Concílio Vaticano II (1962-65), incluindo o reconhecimento da liberdade religiosa e o abandono da doutrina que atribuía aos judeus a responsabilidade pela morte de Cristo, recorda a AFP.
Segundo a "Der Spiegel", Williamson quis que as perguntas fossem enviadas para o seminário por fax, e respondeu através de e-mail. A sua autenticidade foi confirmada por um telefonema do bispo e de um advogado da Fraternidade.
Um repórter do "Guardian" tentou visitar o seminário. Ouviu apenas que o bispo Williamson estava em “exercícios espirituais” e que “o seminário estará fechado durante um mês de retiro espiritual e que não são permitidos contactos durante esse período”. “O controverso bispo não parece disposto a quebrar a sua rotina nem para responder ao pedido de Bento XVI”, escreve o jornal.
O Papa afirmou na quarta-feira que Williamson deveria tornar “públicas e inequívocas as suas distâncias” em relação às declarações sobre a Shoah antes de ser admitido para funções episcopais na igreja católica. Mas apesar de ter dito que lamentava toda a polémica gerada pelas suas palavras, o bispo não voltou atrás. Foi o superior-geral da FSSPX, Bernard Fellay, quem se desculpou, pedindo “perdão” ao Papa e a “todos os homens de boa vontade”.
“Grande catástrofe”
Para uma fonte ao mais alto nível da hierarquia do Vaticano ouvida pelo "Guardian", este episódio é “a maior catástrofe para a Igreja Católica Romana nos tempos modernos”. Não só soltou uma torrente de ressentimento judeu, comprometendo um acordo com Israel sobre o estatuto da igreja católica no país, como põe em causa o próprio papel do Papa, que foi conduzido como alguém que seria capaz de restaurar a “lei e a ordem” na igreja, adianta o diário britânico.
O bispo austríaco Manfred Scheuer afirmou ontem que o Vaticano deveria agora analisar os seus erros. “As explicações do Papa [dadas esta semana] eram mais do que necessárias e saúdo-as. Mas agora é preciso também analisar os erros cometidos”, disse ao diário "Tiroler Zeitung". “Sobre questões tão importantes como o anular de uma excomunhão, as conferências episcopais envolvidas devem ser consultadas. No caso da Fraternidade Pio X, as conferências episcopais francesa e alemã deviam ter sido ouvidas”.
O comunicado do Vaticano impunha como “condição indispensável para o reconhecimento da FSSPX o pleno reconhecimento do Concílio do Vaticano II”; mas Williamson voltou a lançar as mesmas críticas, acusando o Concílio de ter lançado “o caos teológico que temos hoje”.
Uma fonte da Santa Sé adiantou que está previsto um encontro entre Bento XVI e os principais grupos judeus, para atenuar a tensão. A reunião deverá ocorrer em finais deste mês, ou princípios de Março.
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