A Itália está mergulhada numa grave crise política, com a ruptura entre o primeiro-ministro Silvio Berlusconi e o presidente da Câmara dos Deputados, Gianfranco Fini. A aliança entre os dois no partido de direita Povo da Liberdade (PDL) chegou ao fim depois de vários meses de tensão e alguns analistas falam mesmo em eleições antecipadas.
A ruptura com Fini, que nos últimos tempos tem sido das vozes mais críticas dentro do próprio partido, foi anunciada esta quinta-feira, já tarde, após uma reunião dos responsáveis do PDL. Berlusconi falou de “divergências insanáveis”, e disse que não estava mais disposto a aceitar “um partido dentro do partido”. Pressionou Fini para abandonar a presidência da Câmara dos Deputados, mas este anunciou que não irá demitir-se e desafiou o primeiro-ministro ao dizer que os seus apoiantes no Parlamento “não hesitarão em opor-se às escolhas injustas do Executivo ou contrárias ao interesse geral.”
Um grupo de 32 deputados apoiantes de Fini abandonaram o partido de Berlusconi para criar o seu próprio grupo parlamentar, adiantou a AFP, o que retira ao Governo a maioria absoluta. Agora fazem-se contas. Até ontem Berlusconi contava com o apoio de 174 senadores em 315, e de 344 deputados em 630 – 59 dos quais da Liga do Norte, partido populista e anti-imigração de Umberto Bossi. Para a aprovação de qualquer lei é necessário o voto de 316 deputados, mas apesar disso Berlusconi desdramatizou a situação. “Não há risco. Temos a maioria.”
Esta crise não significará a queda automática do Governo, “uma vez que o grupo dissidente não se mostra, por enquanto, disposto a apoiar uma moção de censura ao Executivo”, sublinhou o diário espanhol "El País". Representa, no entanto, o final de um casamento de conveniência, a “dissolução de um partido que nunca deixou de ser uma fusão fictícia entre a berloscuniana Força Itália e a pós-fascista Aliança Nacional”.
A expulsão de Fini ocorre após vários meses de divergências com Berlusconi. Quando o Governo quis propor uma lei que reduzisse drasticamente as escutas telefónicas feitas pelos magistrados e impedisse os jornalistas de as citarem, por exemplo, Fini opôs-se e obrigou a suavizar essa proposta, para grande desagrado de Berlusconi. Em nome da “moralidade e legalidade”, também apelou aos políticos que estejam a ser investigados se demitam das suas funções, numa altura em que três ministros acusados de corrupção e tráfico de influências tiveram de abandonar os cargos.
O afastamento de Fini do PDL poderá levar Berlusconi a perder a maioria e a querer disputar eleições antecipadas para ser reeleito, embora as últimas sondagens apontem para um declínio da popularidade do Governo. Para isso será necessário que o Presidente Giorgio Napolitano dissolva o Parlamento, mas o chefe de Estado poderá também optar pela nomeação de um Governo interino.



