O Papa considerou ontem "deploráveis" as rusgas feitas pela polícia belga na catedral de Malines, em gabinetes da Igreja e na casa de um cardeal para encontrar provas relacionadas com casos de pedofilia.
Depois de o Vaticano ter criticado os procedimentos das autoridades, ontem o próprio Bento XVI manifestou a sua solidariedade para com os bispos belgas.
As buscas ocorreram quinta-feira e interromperam uma reunião de bispos, que acabaram por ficar cerca de nove horas impedidos de sair do local, sem acesso aos telemóveis. Foram confiscados computadores e a polícia investigou também os túmulos de dois cardeais que tinham sido remodelados recentemente, o que levou o Vaticano a condenar a "profanação" das sepulturas.
Bento XVI ainda não se tinha manifestado sobre a actuação das autoridades belgas. Ontem, numa carta enviada ao presidente da Conferência Episcopal belga, o arcebispo André-Joseph Léonard, o Papa manifestou "solidariedade neste momento de tristeza em que, com procedimentos surpreendentes e deploráveis, as investigações foram realizadas". E adiantou que os casos de pedofilia que envolvem a Igreja "devem ser tratados pela magistratura civil e canónica com o respeito recíproco pela autonomia e especificidade de cada um".
Antes de Bento XVI, já o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, tinha criticado a justiça belga e lamentado que as sepulturas dos cardeais Josef-Ernest Van Roey e Léon-Joseph Suenens tivessem sido investigadas em busca de documentos. "Estas coisas não aconteciam nem na União Soviética", disse, citado pelo diário espanhol El País.
Críticas "excessivas"
O ministro belga da Justiça, Stefaan De Clerck, defendeu a actuação da polícia e considerou as críticas de Bertone "um pouco excessivas". Em declarações à estação de televisão pública RTBF adiantou que "não se deve fazer deste caso um incidente diplomático" e que "os bispos foram tratados normalmente durante as buscas". Negou ainda as informações de que os bispos, que durante o encontro iriam abordar os abusos de menores perpetrados por membros da Igreja Católica, tenham sido deixados sem comer ou beber, como denunciara Bertone.
O porta-voz da arquidiocese de Malines, em Bruxelas, minimizou as declarações de Bertone. "Foi um comentário pessoal feito num momento de emoção", considerou Eric De Beukelaer.
A polícia procurava vários documentos, sobretudo correspondência entre alegadas vítimas de pedofilia e responsáveis católicos, adiantou a AFP. Na catedral, as buscas não resultaram em qualquer apreensão, mas dos gabinetes da Igreja foram levados 475 documentos, para além de computadores e outros dados em CD e DVD.
Nos últimos anos, a Igreja Católica tem sido afectada por escândalos de pedofilia em vários países, como a Irlanda, Alemanha ou Estados Unidos da América. Na Bélgica, o bispo de Bruges, Roger Vangheluwe, acabou por abandonar o cargo em Abril - foi o primeiro bispo europeu a fazê-lo - depois de ter admitido que abusara sexualmente de um rapaz há cerca de 20 anos. A Igreja belga acabou por pedir perdão pelo silêncio em relação a casos de abusos no passado e prometeu adoptar uma política de intolerância quanto aos abusos de menores cometidos em instituições da Igreja Católica.



