Belgrado recebe Milosevic sem honras de Estado

16.03.2006 - 08:48 Por Francisca Gorjão Henriques, , (PÚBLICO)
Depois de dois dias de negociações quanto ao local onde seria sepultado, o corpo de Slobodan Milosevic chegou ontem à Sérvia. O funeral não terá honras de Estado e o ex-Presidente jugoslavo não será enterrado em Belgrado. Será levado para Pozarevac, sua terra natal, onde tudo começou.
Foi num avião comercial que os restos mortais de Slobo fizeram a viagem entre Amesterdão e Belgrado. À chegada, o caixão foi recebido pelos principais líderes do Partido Socialista da Sérvia (SPS), que o cobriram com a bandeira nacional e rosas vermelhas.
À porta do aeroporto estavam algumas centenas de simpatizantes. "Os heróis não morrem, entram para a História", lia-se no cartaz de uma mulher em lágrimas. O corpo seguiu para a morgue.
O objectivo do SPS é fazer hoje um velório numa tenda em frente ao Parlamento, no centro da cidade: o mesmo lugar onde decorreram as manifestações que obrigaram Milosevic a deixar a liderança em Outubro de 2000, depois de 13 anos de poder e guerras que fizeram 200 mil mortos nos Balcãs.
Marko, o filho mais novo de Milosevic e Mirjana Markovic (Mira), foi ao Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ), onde o pai estava detido há quatro anos para responder por crimes contra a humanidade, crimes de guerra e genocídio, para acompanhar o corpo ao avião. Depois, regressou a Moscovo, onde ele e a mãe estão exilados.
A família conquistou o apoio dos deputados russos: ontem, a câmara baixa do Parlamento (Duma Estatal) exigiu um "inquérito internacional independente" sobre as causas e as circunstâncias da morte de Slobo. Pediu também o encerramento rápido do TPIJ. O tribunal foi acusado de ser "extremamente politizado e parcial" e de não ter dado a Milosevic os cuidados de saúde necessários.
A autópsia revelou que o ex-líder sérvio sofreu um enfarte do miocárdio no sábado; esperam-se os resultados dos exames de toxicologia para concluir se estava ou não a tomar fármacos que anulavam os efeitos de outros medicamentos para controlar a tensão arterial.
A vitória nacionalista
Em Belgrado há quem exprima o receio de que o funeral de Milosevic venha a reacender o fervor nacionalista, dando nova força a grupo que já mantém bastante influência no país. Tanta que o primeiro-ministro, Vojislav Kostunica, optou por preservar a sua coligação governamental aceitando que Milosevic fosse enterrado na Sérvia (falou-se na possibilidade de ficar na Rússia ou no Montenegro).
A ameaça dos socialistas do SPS de se retirarem da frágil coligação governamental, caso o fundador do partido não fosse enterrado no país, produziu efeitos. "As condições foram satisfeitas", disse, vitorioso, Milorad Vucelic, um dos principais líderes do SPS, citado pela AFP.
As cedências do Executivo não se ficaram por aqui. O mandado de captura contra Mira, acusada de abuso de poder, foi suspenso para que pudesse despedir-se do marido. A imprensa sérvia afirmava que mesmo a condição de entregar o passaporte à polícia à chegada e a comparência num tribunal no próximo dia 23 foi levantada. No entanto, um deputado russo afirmou ontem que a viúva de Slobo poderá não ir ao enterro por garantias de segurança "insuficientes".
"O Governo poderia cair se o funeral não tivesse lugar", afirmou Zoran Cirjakovic, comentador do semanário NIN. Kostunica procurou salvar a face evocando a tradição: "Os enterros são um acto civilizado que deve ser respeitado. Isto está enraizado na nossa tradição."
Mesmo morto, Milosevic consegue dividir o país, concluíram alguns dos seus opositores. O número de participantes no enterro será o barómetro da força nacionalista, dizem analistas.
O SPS governou a Sérvia durante uma década, até Milosevic ser obrigado a deixar o poder. Desde então que se tornou numa franja da cena partidária: tem 22 deputados entre os 250 que formam o Parlamento. Mas este é um número suficiente para formar um pilar fundamental que mantém de pé a coligação de Kostunica, integrando nacionalistas, conservadores e liberais.


