Bélgica parou em dia de visita dos líderes europeus

30.01.2012 - 18:13 Por Susana Almeida Ribeiro, em Bruxelas
Hoje caiu uma neve fininha sobre Bruxelas. Sob temperaturas negativas, o centro da cidade esteve relativamente tranquilo graças à greve geral: a primeira de “frente comum sindical” desde 1993 contra as medidas de austeridade anunciadas pelo Governo belga.
Na zona de Porte de Namur, uma das mais comerciais de Bruxelas e onde se concentram igualmente muitos serviços, o PÚBLICO falou com duas pessoas sobre a greve. Uma contra e outra a favor.
Geoffrey, de 36 anos, está contra a paralisação, que acabou por não o afectar porque vai sempre a pé para o trabalho. Discorda da greve porque acha que o mundo mudou: “Já não estamos em 1984. O mundo globalizou-se. Temos de nos adaptar. As pessoas têm de manter uma mente mais aberta e deixarem de pensar apenas nelas próprias”, diz. Do seu lado Geoffrey parece ter 79% dos cidadãos a quem foi perguntado na semana passada, pelo jornal flamengo “Het Laatste Nieuws”, se estão contra ou a favor da greve.
Pelo contrário, Tino, de 47 anos, trabalha nos serviços de distribuição de correio da Comissão Europeia mas hoje fez greve. Diz que a paralisação é uma “natural expressão de indignação dos trabalhadores” que têm sido muito prejudicados desde que estalou a crise financeira mundial. “Os patrões servem-se da desculpa da crise para tomarem uma série de medidas prejudiciais para os trabalhadores, incluindo as deslocalizações”.
“Temos todos de participar neste protesto. Não fazer nada não é opção. Mesmo que esta greve prejudique pessoas que não têm culpa nenhuma, não podemos simplesmente ficar de braços cruzados e desmoralizados”, explica.
Quer se esteja de um lado ou de outro da barricada, terão sido poucas as pessoas que hoje não viram as suas vidas afectadas pela paralisação. O metro de Bruxelas fechou, os autocarros deixaram de circular e dos eléctricos nem sinal. As principais avenidas de Bruxelas, sobretudo os eixos que ligam as instituições europeias ao centro financeiro e comercial da cidade, estavam estranhamente desimpedidas para uma segunda-feira de frio e neve.
Fecharam igualmente escolas, serviços, algum comércio e mesmo várias fábricas, incluindo as da Coca-Cola, Audi e Volvo.
Apesar de o aeroporto de Bruxelas se ter mantido aberto - apenas 10% dos voos terão sofrido os efeitos da crise - o aeroporto de Charleroi, a sul da capital (onde aterram voos low-cost), manteve-se fechado durante todo o dia.
Também as ligações ferroviárias de alta velocidade que ligam Bruxelas a outras capitais europeias, nomeadamente Paris e Londres, começaram a sofrer os efeitos da greve logo no domingo à noite.
Os três principais sindicatos belgas (CSC, FGTB e CGSLB) consideraram a paralisação um sucesso logo ao início da tarde de hoje e exigiram nova ronda de negociações com o Governo, a fim de suavizar as medidas de austeridade impostas.
Esta greve - a primeira geral desde 2005 e a primeira de “frente comum sindical” desde 1993 - é uma resposta dos trabalhadores às medidas de austeridade anunciadas em Dezembro último pelo Governo de coligação liberal-socialista-centrista de Elio Di Rupo (socialista francófono) incluindo cortes nas pensões sociais e a proposta de aumento da idade de reforma dos 60 para os 62 anos. Os planos governamentais de austeridade prevêem uma poupança de 11,3 mil milhões de euros, o que naturalmente significa que os belgas - como tantos outros europeus - terão de apertar o cinto.
De acordo com o “Le Soir”, citando a Federação das Empresas da Bélgica, a greve terá custado ao país entre 600 a 800 milhões de euros, mais os custos indirectos como seja a reputação belga junto de investidores externos.
Cimeira não foi afectada
Apesar de alguns líderes sindicais terem desmentido que a greve teria como intenção perturbar o encontro de líderes europeus que decorreu ontem à tarde em Bruxelas, a verdade é que o timing foi oportuno. E paradoxal: no dia em que a Bélgica mostrava estar descontente com as medidas de austeridade, os líderes europeus vieram a Bruxelas comprometer-se com a necessidade de disciplina orçamental.


