Austrália: Primeiro-ministro pede desculpas pelos milhares de crianças “esquecidas”

16.11.2009 - 09:04 Por PÚBLICO
O primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, pediu hoje desculpa ao milhão e meio de “australianos esquecidos” – as crianças que foram vítimas ao longo de várias décadas de maus tratos e abusos em instituições públicas do país, muitas delas enviadas da Grã Bretanha para a Austrália e em muitos desses casos sem o conhecimento dos pais.
“[Sentimo-nos] desolados por esta tragédia, esta tragédia absoluta, de infâncias perdidas”, afirmou perante os cerca de mil de sobreviventes deste drama humano que hoje se apresentaram no Parlamento – cumprindo a recomendação feita pelo Senado em 2004, instando o Governo da Austrália a assumir “arrependimento”.
Dirigindo-se directamente aos sobreviventes expressou a esperança de que estas pessoas passem antes a ser chamadas “australianos lembrados”. “Estamos hoje todos juntos para vos apresentarmos as desculpas do Estado, para vos dizer que estamos desolados”, prosseguiu, num discurso transmitido pela televisão, lamentando ainda que muitas daquelas crianças tenham sido abandonadas “ao frio, à fome e à solidão, sem terem onde se esconder e ninguém, absolutamente ninguém, a quem recorrer.
“Olhamos para trás com vergonha de que aqueles que tinham poder tenham podido abusar de quem não o tinha."
Centenas de milhares de crianças foram vítimas de enormes violências, incluindo casos de abuso sexual, nos orfanatos e casas de acolhimento australianas. E entre elas estão umas sete mil que, ao abrigo do Programa de Crianças Imigrantes, foram levadas do Reino Unido para a Austrália entre 1927 e 1967 – por estas também o chefe de Governo britânico, Gordon Brown, deve em breve apresentar desculpas oficiais, segundo foi ontem revelado pelo ministro da Infância, Ed Balls.
Ao longo daquelas três décadas, o programa britânico enviou no total umas 130 mil crianças pobres, entre os três e os 14 anos, para outros países da Commonwealth, sobretudo para a Austrália e Canadá, mas também para a Nova Zelândia, para a África do Sul e para o Zimbabwe, com promessas de que teriam uma vida melhor. Em muitos casos foram enviadas como trabalhadoras para quintas, onde sofreram todo o tipo de abusos físicos, psicológicos e sexuais.
É esperado que este pedido de desculpas, que Balls descreveu como “muito importante simbolicamente”, seja feito no discurso de Brown de Ano Novo. Muitas das crianças abrangidas pelo programa estavam já institucionalizadas no Reino Unido, sendo-lhes dito que os pais tinham morrido, ao mesmo tempo que os pais não eram informados de que as crianças estavam a ser enviadas para fora do Reino Unido.

